Consta na lista dos afazeres cotidianos uma atividade cuja
recompensa ou é o silêncio de a ter realizado, ou então o evidente desastre de
não ter sabido como cumpri-la. Porque paira justamente aí a injustiça humana:
quando sabe-se fazer algo, nada ou ninguém presta atenção, ao passo que, uma
vez incorrendo em qualquer incompetência digna de nota ou não, haverá sempre um
papagaio a lhe repetir publicamente as notas do fracasso. Pois Guilhermina das
caixas de ovos testou com galhardia os limites do talento, atravessando a rua a
equilibrar umas não sei quantas caixas de ovos, brancos ou laranjas, tanto faz,
passando incólume o seu hercúleo esforço por quem fosse que a visse naquela
situação: toda ela distribuindo as próprias banhas - porque se uma coisa podemos
dizer de dona Guilhermina das caixas de ovos é que, provavelmente, muitos ovos
fritos havia ela ingerido ao longo desse tempo todo em que acabara por firmar a
sua reputação, nada aplaudida e bastante desprezada, por sinal, de exímia
carregadora de caixas de ovos, brancos ou laranjas, tanto faz, cabendo,
inclusive, a insinuação nada absurda, por sinal, de que ela, dona Guilhermina
das caixas de ovos, incluía também algumas fatias de bacon na sua pesada dieta,
fato que explicaria a silhueta assaz avantajada -, e assim dava conta, ainda
que inconscientemente, de usar as próprias banhas como contrapeso aos frágeis
ovos que empilhava em pilhas de bandejas de isopor. E lá ia dona Guilhermina
das caixas de ovos, quase um monumento inteiro e invisível da suprema falta de
consideração que prestamos a todos os que dedicam suas vidas a feitos
inacreditáveis, mas que pairam no mais espectral anonimato, só valendo atenção
no instante em que esparramam sua imperícia aos pés nossos, espectadores
ingratos desse mundo em que ovos, tampouco carregadores de ovos, valem nada, ou
quase nada, mesmo sendo eles, os ovos, laranjas ou brancos, tanto faz.
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