terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Convenhamos
Viver bem é viver 
Em banho-maria
Essa coisa de intensidade
(Dá-lhe saber!)
Só na poesia

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Fábulas: # Três pombas gordas no parapeito

Ao abrir a janela, três pombas gordas e de pescoço engomado feito colar elisabetano formavam uma linha no parapeito do prédio vizinho a exemplo de três matronas líricas que esperam o subir da cortina para iniciar a arrulhar falsetes. A primeira delas arriscou a Rainha da Noite e foi efusivamente recebida pelo alvoroço de um punhado de maritacas; a segunda, mais humilde, se fez de voz de coro e emendou a melodia dos escravos hebreus da ópera Nabucco. A terceira pomba, a menos dramática de todas, não cantou... contentou-se apenas em rir baixinho das outras - era uma pomba do tipo pomba-existencialista -, e antes de bater asas para o longe pôde-se ouvir dela uma única e sussurrada frase:

- que coisa curiosa são as pombas...

E foi-se.


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domingo, 14 de dezembro de 2014

Fábulas: # A vez dos cachorros...

E de repente descobriu-se que os cachorros tem alma e, portanto, um lugar por direito à direita de Deus Pai, pelo menos os cachorros de alma-boa, porque para tudo o que tem alma há também aqueles que, dotados de almas nada afeitas ao destino da eternidade celeste, padecem por serem maus, e quem há de duvidar de que existem também cachorros maus? Pelo menos cachorros distantes dos ditames do Senhor Todo Poderoso e, portanto, formadores do alvo preferencial a ser convertido para o bem, porque é também da natureza dos que tem almas-más, incluindo aí os cachorros maus, uma certa propensão natural para o bem - sendo maus unicamente por um desvio de caráter bastante compreensível àqueles que, em convívio com más companhias (incluindo aí os maus cachorros) tornam-se, portanto, maus também - e, portanto, havendo isso a que chamamos de trilha do Divino ofertada à todos os que tem alma (cachorros ou não cachorros, bons ou maus) a título de celebrar a salvação junto aos demais de alma comprovadamente boa, incluindo aí os cachorros de alma boa, o que se deu foi a implementação em caráter de urgência da missa-dos-cachorros, e cujo evangelho canino pode ser ouvido em ganidos, uivos e ladros, especialmente daqueles cachorros mais fervorosos - os cachorros postulantes a um lugar à direita de Deus Pai -, guiados pelo cuidado e benevolência da palavra do cachorro-pastor

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Fábulas: # Guilhermino Constâncio, ou, A verdade e nada mais do que a verdade...


Guilhermino Constâncio gabaritava-se de ser o dono dessa fina espécie de escrúpulo em extinção cujo resumo poderia ser bem pintado como o compromisso primordial com a verdade e nada além da verdade. Aliado à ponderação matemática que cuida de somar isso mais aquilo para que desse isto sem pôr nem tirar quiçá pestanejar, Guilhermino Constâncio primava por perseverar entre o último dos dialéticos à serviço da corroboração fiel e imparcial dos fatos. E quando naquela manhã abriu o jornal e leu o seu nome impresso na sessão dos obituários do dia, correu para o espelho e certificou-se de que estava, de fato, vivo, haja vista que seria bastante improvável - a análise minuciosa das circunstâncias concordava com ele - que um defunto pudesse dar-se ao exercício de se dirigir ao espelho para certificar-se de estar morto (que o dirá vivo!), e de que, portanto, aquilo que publicavam não passava da mais pura e enfática mentira sedimentada sob patamares indiscutivelmente caluniosos o que acabara por injetar em Guilhermino Constâncio uma veia ruborizada de ira em sua testa que somente espocava em situações de extrema justificativa e na face daqueles que reuniam por direto jurídico estampar a indignação. Pensou em ligar para o jornal e pedir uma imediata retratação mas como ainda não havia batido aquelas primeiras horas da manhã que fazem tingir de luz os últimos arroubos silenciosos da madrugada, e concluindo com a exata parcimônia do raciocínio lógico que a redação do folhetim haveria de estar às moscas, coube à Guilhermino Constâncio, então, uma difícil decisão interna que culminou num ato de extrema hombridade que devolveria à ele a reputação perdida ainda que por quase insuspeitos instantes: debruçou-se no parapeito da varanda de seu apartamento e num átimo de segundo estufou o peito com aquela resoluta coragem só atribuída a quem usa o nariz para aspirar a justeza e, enfim, pulou para o vazio do nunca mais. No dia seguinte o mesmo jornal publicou em primeira página o passo a passo do suicídio, sem tirar nem pôr, e com a devida assepsia informativa dos acontecimentos pregressos até a culminação do ato fatídico. Algumas páginas adiante e lá estava, numa errata com letras diminutas e quase ilegíveis, as desculpas do redator pelo erro no obituário da edição da véspera. 

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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Por que será que é preciso morrer para dar atenção àquilo que quando vivo passávamos ao largo?
Será que é preciso deixar de existir para saber que 
De fato
Existíamos
E pouco disso
Sabíamos?

Será que a vida é isso
Um adiamento
Que quando deixa de ser
Virando esquecimento
Dela lembramos com saudoso
E irreversível
Lamento?


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