Quando Lopard Lionel Landwitch, o pianista, desgrudou lentamente as mãos do piano, e após uma nota de longa pressão nas teclas como epílogo magistral do concerto da noite, então, e só depois disso, abriu finalmente os olhos - cerrados até aquele instante em um inspiradíssimo contrato firmado com o último acorde -, e o que se seguiu foi um silêncio tumular. Ninguém da plateia esboçou reação alguma. A orquestra congelou-se num quadro de magnitute espetacular. O maestro empedrou-se com a batuta apontando para o céu e para nunca mais descer. Pareciam todos engessados como que estátuas cimentadas pelas camadas melódicas de Leopard Lionel Landwitch, o pianista, ele próprio inerte, alvo de sua própria audácia. A situação era tão grave que, imagino, se alguém voltasse aquele cenário dali a duzentos anos, certamente encontraria aquelas mesmíssimas figuras imobilizadas como agora, fósseis futuros para uma escavação arqueológica. É bem verdade que não fosse por aquele espirro (alguém espirrou) e tudo isso teria se consumado, dando origem ao primeiro cemitério de almas intactas, nada afeitas ao apodrecimento da carne. Pois a vida voltou pelo espirro. Um espirro anônimo, mas plenamente audível. E todos dispersaram-se para suas casas. E na solidão de cada um, lembraram-se de que haviam esquecido de aplaudir a performance de Leopard Lionel Landwitch, que haviam retornado para casa sem emitir nenhum som de agradecimento, nenhuma palma sequer, nenhum 'bravo!' que fosse, nada senão um toc-toc dos sapatos indo para bem longe de onde até então haviam estacionado. Na cidade já escura, e aos olhos do bom observador, podia-se enxergar algumas luzes acesas, distribuídas entre tantas outras janelas apagadas, dormentes, e delas, das janelas iluminadas, saíam ruídos abafados, que, se somados, repercutiriam numa estrondosa avalanche de entusiasmo, ainda que tardio.
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sexta-feira, 7 de novembro de 2014
quinta-feira, 6 de novembro de 2014
Fábulas: A timidez de um Alguém promissor
Um proeminente Alguém que viria a ser importantíssimo não fosse sua timidez que o impedia de dizer as verdades que guardava, resolveu, para não desperdiçar o verbo e atrofiá-lo para sempre no mudo escuro da alma, armazenar pequenas pílulas de sabedoria dentro de bolhas de sabão que seriam por ele mesmo assopradas e lançadas ao sabor do vento, e, quando o destino quisesse que fossem estouradas, aquilo que havia dito na ocasião do sopro rebentaria aos ouvidos de quem ouvidos tivesse, desvinculando o autor do verbo, e, o mais importante, preservando a timidez do aspirante à alguém importantíssimo da sensaboria coletiva. Pois a primeira tentativa foi exemplarmente bem sucedida, e quanto a bolha estourou ouviu-se um retumbante e acachapante 'vão todos à merda!'
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Fábulas: # O sujeito paranoico
Era uma vez um sujeito paranoico cujo nome não divulgamos aqui para que ele não encontre chance de decretar que estas linhas não são o que aparentam ser, ou seja, um texto qualquer desses que qualquer um redigiria por puro tédio, falta do que fazer, ou mero pretexto para a digestão do desjejum, senão um relatório forjado e manipulatório de denúncia contra a sua pessoa, inocente pessoa, evidentemente, que, enfim, decidiu abrir os olhos para aquilo que o mundo evidencia em faiscantes manchetes a cada vez em que gira em seu ensimesmado eixo - e por isso mesmo alvo fácil daqueles que desejariam a sua cabeça a prêmio, uma vez que dizer a verdade e nada mais do que a verdade é um golpe de coragem e audácia indesculpável para aqueles, a maioria - maioria que é cega, mas não porque é cega, mas porque [vejam só!] enxerga perfeitamente bem e ainda assim faz-se de cega para não ter que ver) que vivem patinando no limbo escorregadio da mentira -, ou seja, a de que tudo nessa vida não passa da mais deslavada fraude, e cujo intento é o de desmoralizar os justos e festejar a vitória dos corruptos, aqueles com culpa lavrada no cartório e quase nunca desnudados em seus pérfidos crimes aos quais o povo, burro, costuma dobrar-se por pura ingenuidade ou burrice mesmo, o que dá na mesma (burro = burrice). Pois bem, e enfim, era uma vez um sujeito paranoico que, atento para todos os indícios farejantes de que o mundo estava fora dos gonzos {to be, or not to be}, entendeu que aquele exato pingo de chuva que lhe aliviava o fervor da careca - quente por tanta atividade intelectual dos miolos vigilantes -, era, de fato, a pista que faltava para abrir as comportas inundantes das provas comprobatórias de que aqueles que lá estavam no poder eram não só assassinos deslavados, chifrudos mascarados, bufões maquiavélicos, como, também, necessários representantes daquilo que há de mais nojento em qualquer filme do James Bond, qual seja, a crença pela massa desinformada de que os vilões não são do mau, mas, charmosos, e, até, necessários para o andamento da narrativa novelesca, a qual - como sabemos - cabia a ele, o sujeito paranoico, desvelar em todos os seus fio emaranhados até que estivessem, um por um, desemaranhados.
- Era uma vez, e de uma vez por todas - até que enfim -, um sujeito paranoico que, para alimentar sua verde de paranoias, abriu uma conta no Facebook e passou a compartilhar todas as notícias dos principais jornais, que, como bem sabemos, de paranoicos não tem nada, quiçá interesse em disseminar a paranoia nos que ainda não são paranoicos, ou, tampouco, naqueles que de paranoia já estão com a barriga cheia.
Prazer!
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- Era uma vez, e de uma vez por todas - até que enfim -, um sujeito paranoico que, para alimentar sua verde de paranoias, abriu uma conta no Facebook e passou a compartilhar todas as notícias dos principais jornais, que, como bem sabemos, de paranoicos não tem nada, quiçá interesse em disseminar a paranoia nos que ainda não são paranoicos, ou, tampouco, naqueles que de paranoia já estão com a barriga cheia.
Prazer!
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quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Fábulas: # Os canoístas e os rinocerontes de chifre cinza
Sabe-se por fontes seguras que após a inauguração do serviço de travessia de rinocerontes de chifre cinza em canoas, cumprindo o trajeto de uma margem a outra do rio, houve uma ocasião - que por razões misteriosas nunca se chegou a conhecer o real motivo -, os rinocerontes de chifre cinza decidiram em comum acordo entrar em greve e não mais empreender deslocamentos fluviais, fazendo com que os canoístas, condutores das canoas, sentindo a orfandade de seus colegas de embarcação, entrassem em greve também, e, desde então - e depois de uma assembléia onde os rinocerontes decidiram em comum acordo retornar à prática dos deslocamentos fluviais em canoas -, sabe-se que não há qualquer chance de se avistar uma canoa onde haja somente um canoísta sem o seu companheiro rinoceronte de chifre cinza embarcado também, ou, então, que haja qualquer rinoceronte de chifre cinza empreendendo solitariamente sua travessia numa canoa sem a ajuda de seu fiel escudeiro, o canoísta.
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Fábulas: # A razão de haver construído uma pista de patinação sobre o gelo em pleno deserto, e outra não menos razão para não haver razão alguma
Perguntado sobre a necessidade de haver construído uma pista de patinação sobre o gelo em pleno deserto escaldante, o empreendedor de tal loucura retrucou perguntando se alguém haveria por acaso respondido a outra dúvida, essa mais essencial, a saber qual a necessidade de haver nascido se antes tantos outros já o fizeram, insistindo sem sucesso nesse tão louco negócio de existir, e sabendo que outros tantos virão na mesmíssima toada da bancarrota dos anteriores, sem razão, propósito ou explicação, e, ainda pior, tendo consciência de tudo isso, dos becos sem saída, e, ainda assim, sem a menor intenção de fechar as suas lojas de absurdidades as quais apelidam de vida... Por que?
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Fábulas: # Do humor insensível das intempéries
À crise de desabastecimento seguiu-se outra, de abundância, e entre excesso e falta, já não sabendo o que era pior, se afogar-se no muito disso ou expirar ao vento na falta do tanto que já não havia, foi decretado, enfim, as diretrizes que faziam legitimar as saudades da miséria, em épocas de vacas gordas, e o desejo saudoso de ofertas generosas, no período da estiagem completa, equilibrando, assim, as emoções, que, no final das contas, era o que se fazia crer que importava, ainda que a natureza operasse por um capricho misterioso aos corações alheios.
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Fábulas: # A Agência de Conceitos...
Caro interlocutor desconhecido cujos olhos agora acompanham
estas palavras de outrem não menos desconhecido ao mesmo tempo em que rói
vossas unhas justamente porque a existência não te conferiu profundidade outra
fora o ato de olhar para onde quiseres olhar e unhas para que possas roer,
anuncio pois, e para a salvação de ambos – eu que o desconheço e tu que me
desconheces -, e em primeira mão, que encontrei aquilo que há tanto tempo andava
procurando: um jeito de substanciar esse meu eu já tão oco e sem substância
quanto o oco vazio de um poço oco, sem água, já no limite da aridez que um
poço, justamente porque oco e seco, possa vir a suportar. Entrei, pois, para
essa Agência de finalidades sublimes cujos fins ainda não me foram apresentados,
e cujo princípio fundamental e pioneiro é mais do que claro e está, grifo meu,
em conferir conceitos a tudo o que possa ser conceituado, fazendo daquele que
conceitua, eu portanto, um agente fervilhante de criatividades ultra
exponencial, revertendo em jorros de vida aquilo que antes, como já o disse,
padecia como sertão de vida enrugada, ou quase sem vida, ou totalmente morta, e
enrugadíssima de peso existencial, ou seja, o eu que o era e, graças a essa
Agência miraculosa de milagres inequívocos, já não o sou mais. Perceba, caro
interlocutor, que o mero fato de reportar-me a ti já confere a mim uma
felicidade da ordem do incalculável, já havendo aqui, caso não o tenha
percebido, uma função conceitual de gravíssima, ou grandíssima, ou ambas as
coisas, importância – tu lês este texto enquanto eu o escrevo, ainda que quando
o leres eu já o tenha escrito e, provavelmente, esteja eu conceituando em outra
praia enquanto tu ainda és alvo dessa luminosidade tardia e exemplar a qual te
rendes em justificada reverência como um lagarto que lagarteia ao sol
nutrindo-se de seus nutrientes vitaminais. Caro interlocutor, a Agência a qual
me refiro, e a qual invoco que tu a conheças antes que te faltem unhas nos
dedos, ensina-me que lavar as mãos na pia de cerâmica implica num conceito
(outro conceito do que seria lavar as mãos, por exemplo, numa hipotética outra
pia, de mármore, por exemplo, e não de cerâmica, por exemplo), e que, por uma contingência
do destino, vem a ser um conceito completamente particular – o de lavar as mãos
– tão diferente quanto outros tantos, quais sejam, por exemplo, o de coçar o
cocuruto quando houver coceira, ou o de bater três vezes uma palma da mão na
outra ainda que não saibas para quê, ou porquê, ou tanto faz. Porque veja, caro
leitor desconhecido, aí está a eureca da tese, ou a tese da eureca: sendo tu o
agente conceituador, há, portanto, para qualquer coisa a preciosa chance de
descobrir uma finalidade oculta, ainda que tudo esteja tão escondido que seja
difícil dizer: a-há, eureca! Caro interlocutor desconhecido, antes que roa
vossas falanges invoco-te a procurar o fim desse arco íris onde o pote de ouro
é substituído pela incrível capacidade que tu tens aí, embora não saibas, de
chafurdar conceitos em tudo, coisa que o fará desistir dessa consciência mui
precisa de que és hoje um miserável entregue a essa tua desgraçada condição de
reles leitor daquilo que te vier aos olhos, assim como um medíocre mastigador
de matérias mastigáveis. Caro interlocutor desconhecido, passar-te-ei o
endereço de tal Agência, e, espero eu, que tu não percas a oportunidade que te
entrego de bandeja, qual seja, a de te aguar nas fontes transbordantes da
matéria criativa e conceitual.
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