quinta-feira, 7 de junho de 2012

Quer ser professor? Tenha um bigode!



Quer ser professor? Dica valiosa: tenha um bigode. A relação é direta. O bom professor deve necessariamente apresentar um bigodão logo abaixo do nariz. Bigode no andar debaixo do cheirador? Não me diga? Afinal, em qual outro recanto desse nosso sítio cutâneo poderia haver abrigo para o senhor bigode? Caso tenha pensado em alguma pornografia o problema é todo seu, caro leitor. Eu estou preocupado com o espiritual. O corpo não vale o investimento, a terra há de comer – já pensou o tamanho do banquete que os vermes hão de fazer quando chegar o dia de jantar o loló da Rita Cadilac? Por isso que eu faço questão de afinar regularmente o meu esqueleto. Não dou alegria pra ninguém em vida, vou agora virar motivo de homenagem no túmulo? Se bem que todo morto vira santo. Todo morto é aplaudido de pé. Até verme vai à missa de sétimo dia com o terço na mão. E basta um canalha morrer pro papa abrir um processo de beatificação. Se o Cachoeira empacota, o pontífice o transforma em chafariz de água benta no instante seguinte! E a fonte-santa vira ponto de peregrinação, com milhares de fieis andando em volta aos gritos de ‘Aleluia ó H²O do Olimpo!’. É por isso que a indústria dos santos anda de vento em popa mesmo em tempos de crise. Presunto não liga pra crise alguma. Presunto continua saindo que é uma beleza. E todo presunto vira santo. Sorte dos porcos que devem ter um chiqueiro só deles no céu. Mas chega de humor-de-presunto! Brás Cubas é infinitamente mais talentoso nesse quesito do que esse humilde servo das letras-pagãs que vos fala. Como ia dizendo, professor que é professor estampa um bigode no focinho. O bigode é um atributo corporal, correto, mas é ao mesmo tempo a ponte para o espírito. O bigode é a carta de alforria do sujeito preso à ignorância. O bigode é o elixir filosófico, a passagem secreta entre o terreno e o supra-sensível, o cartão vip que dá acesso ao camarote do Oráculo de Delfos. Não há por onde fugir, caro candidato ao magistério, se quiser ser professor, embigode-se! Mas atenção! Cuidado com o cavanhaque! O cavanhaque poderá levá-lo a outra profissão num estalo de dedos. Motoboys tem cavanhaques. E nenhum professor vai querer associar sua nobre causa com o delivery do Habibs. O professor é o arauto do saber, não o mensageiro da esfiha. Se bem que dependendo do professor qualquer mesa de bar chinfrim vira estágio em Harvard. Nesse caso, quando o estômago vence, quase sempre a culpa é do mestre, que inadvertidamente se esqueceu de estampar o bendito do bigode. O bigode é a vestimenta moral, o anel de Nibelungo do saber, a pedra filosofal dos boletins acadêmicos. A gilete, por sua vez, é criptonita do corpo docente, a encruzilhada da reputação abstrata, o juízo final da emancipação do espírito. Não há nada pior do que um professor ver a sua reputação ser colocada em xeque. Para evitar tal inconveniente, não hesite em deixar crescer sua palhoça acima do lábio superior. Não é bobagem o que digo, caro leitor. Um homem de cara lavada não é respeitado pelo que sabe, pode reparar! Pode até ser o Einstein, mas se tiver a cara limpa, fracasso total, não imprime respeito algum. Einstein, aliás, era um emérito representante da bigodície científica. Tire-lhe o bigode e o E=MC² vira domínio público. Insisto. Com o bigode tudo se altera. Até uma anta-onomatopaica ganha mais respeito quando se embigoda. Entre numa sala de aula com um bigode e imediatamente conseguirá discorrer sobre os mais variados temas, desde o imperativo categórico de Kant, passando sobre os perigos e vantagens do uso sistemático do acelerador de partículas da física nuclear e até sobre qualquer outra coisa que faria um ganhador do Nobel render-lhe reverências. Eu tenho bigode. Não sou bobo nem nada! Agora, como ficam as mulheres nessa história de pelos faciais? Elementar minha cara mulher barbada do circo. Aquelas que não tiverem um buço para valorizar devem recorrer aos bigodes postiços. A 25 de Março é mundialmente conhecida pela venda de bigodes made-in-Taiwan. São resistentes, macios, duráveis e ainda contam com a vantagem de poderem ser lavados e estendidos ao sol para secar – prática que deixaria marcas vermelhonas na cara dos homens que resolvessem aderir ao hábito. Outra coisa interessantíssima é identificar o que ocorre a uma plateia quando esta se defronta com um polpudo bigode. Um bigode é capaz de silenciar uma feira. Se Moisés tivesse um bigode não precisaria recorrer ao Salvador para abrir passagem pelo Mar Vermelho. O bigode daria conta desse obséquio sem maiores esforços. É incrível a capacidade persuasiva de um bigode. Hitler, Stalin, Osama, Sadam e todos os malucos que já passaram pela história do nosso planeta tinham um bigode. E isso por uma única razão: o bigode convence. Ninguém duvida de um bigode. Pode ser o lunático que for, se carregar um bigode estará absolvido. Quando me lembro das inúmeras tentativas de colocar por terra esses carrascos-malucos da humanidade, constato com tristeza que ninguém imaginou a solução mais óbvia para o sucesso na empreitada: uma navalha. Não para cortar o pescoço, mas para aparar o bigode. O barbeiro seria o agente secreto ideal da resistência. Mas ninguém se dá conta de perceber o óbvio. Cuidado! Não digo que o professor deva ser um carrasco. Mas uma vez com um bigode no rosto é bom que ele se dê conta do enorme poder de artilharia da sua taturana-narigal. Recordo de um professor que tive. Ele era altamente equivocado, um legítimo paspalho dentro de um terno que saia por aí vendendo fórmulas vazias de sucesso aos alunos. Um frustrado na vida que fazia da academia o seu consultório de psiquiatria. Pois então, não havia um desgraçado que ousasse encostar o cara na parede e exigir a sua demissão. Tudo por conta de um bigode. O bigode desse professor era um escudo inviolável que fazia render aplausos, nunca vaias. Mas eu sou diferente, caro leitor. Cuido do meu bigodão por uma questão estética. Não sou picareta. Até que me provem o contrário, não sou picareta! Mas só lhe peço uma coisa. Não venha para cima de mim com uma espuma de barbear! Prefiro um embate filosófico de ideias que me derrubem a ter de abrir mão do meu bigode. Mas isso dificilmente acontecerá. Afinal, o portador de um bigode sempre vence! Saudações bigodais! 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Há um pilantra dentro de nós...



Sou um pilantra. Como prova irrefutável dessa minha qualidade, entrego ao seu conhecimento, caro leitor, as minhas duas nobres ocupações profissionais. Sou ator e professor. Justamente as duas maiores cátedras PhD no exercício da pilantrice aguda. O primeiro finge que acredita para produzir verdade naquilo que não existe. O segundo acredita que ensina o que é impossível conhecer na esperança de que os outros entendam o que ele próprio desconhece. Só sei que nada sei. Depois de Sócrates ninguém mais deveria ter coragem de voltar do recreio para assistir a aula de química! E por falar em química, até hoje não faço a menor ideia do que seja 1 mol! Você sabe o que raios é 1 mol, caro leitor? Quem nunca passou noites em claro a queimar miolos na esperança de entender a maldita fórmula do mol, para ao final da prova continuar na mais profunda ignorância a respeito da utilidade metafísica desse número maçônico? A maçonaria deve ter surgido ao redor desse mistério transcendental. E de dentro da maçonaria apareceu a teoria de que o Ronaldinho Gaúcho joga futebol. Outro mistério insolúvel que nos acompanha até os dias atuais. Tenho a impressão de que o enigma da esfinge é exatamente esse: ‘Para que raios serve um mol, reles mortal? Decifra-me ou devoro-te!’. Quem souber a resposta desbanca o Rei Édipo no comando de Tebas ou então vira imediatamente um Buda iluminado, desses que tomam chá verde no cume de algum morro do Tibete na companhia do Dalai Lama. Antes disso, só fazendo muita aula de ioga para dar conta de equilibrar tamanha carga de ignorância. Quem tenta remar na contramão da ignorância recebe de imediato o diploma de bacharel da cafajestagem. Cafajeste é diferente de pilantra. O cafajeste acredita no sucesso do seu empreendimento. O pilantra constrói o edifício já com o dedo no botão da demolição. No rumo da cafajestagem, ator e o professor andam no sentido contrário. O ator e o professor exercitam a fraude, não o sucesso. Ser ou não ser, eis a questão. Pois é. Sou uma fraude. Mas veja bem, minha fraude é um atributo da minha capacidade de ler o mundo, não uma contingência do meu caráter. Porque pilantragem de caráter não é motivo de orgulho algum. Pilantragem de caráter é moeda comum. No cardápio diário, a pilantragem vem no prato como arroz e feijão. Honestidade é outra coisa. Honestidade é corte nobre. Honestidade é filé mignon. Nem todos são honestos, mas pilantras somos todos, incluindo os poucos honestos. Ninguém nasce livre da pilantragem. É como nascer sem esqueleto. Sem esqueleto não há possibilidade de vida humana. Tirem-me o esqueleto e eu perco num estalo de dedos a capacidade de digitar essas linhas profundamente sábias. Não faça essa cara de quem adoraria ver para crer, caro leitor! Não conspire a favor da fuga repentina do meu fêmur e de seus companheiros ossudos! Quem perderia mais com isso seria você. Você e o mundo. Tudo ficaria mais cinza e mais árido, com menos poesia! Mas eu resisto! Vá desossar o frango do seu almoço e me deixe em paz! Mas, como eu ia dizendo, os alicerces são fundamentais. No nosso caso, a pilantragem é o que nos mantém erguidos. O esqueleto moral. Se nos fosse possível safar dessa triste sina, escolheríamos não abandonar esse resort chamado terra ao cabo de algumas poucas temporadas. Quando a diária chega ao fim não há gerente que apareça para escutar nossos clamorosos pedidos de prorrogação das férias. A vida é uma gincana de pilantrices. A prova disso é que ela não dura. Nesse caso, uma pedra é mais digna e honesta que você, caro leitor. A pedra resiste ao tempo, custe o que custar. Você poderia refutar dizendo que a pedra não filosofa, por isso é infinitamente menos merecedora da dignidade que carregamos. É verdade. Mas filosofar a troco de quê, pode me dizer? Já vimos que a busca sagrada pela resposta do santo-mol não nos leva a lugar algum. Alguma coisa de reconhecida relevância foi descoberta desde que o homem deixou de arrastar sua mulher pelos cabelos para dentro das cavernas? Não estou computando o Steve Jobs nessa parada nem o seu olhar sedento para os mais recentes e notáveis inutensílios tecnológicos. Um ipad ou uma máquina de xerox não aliviam em nada a pilantragem da nossa condição. Ao contrário. Enchem-nos de novos desejos para em seguida ceifá-los sem dó nem piedade. Quanto mais purpurina, maior a ressaca ao final da festa. São por essas razões que um pilantra de ofício se dá bem. O pilantra de ofício tem por princípio desconfiar daquilo que faz, compreendendo a impossibilidade de ter sucesso numa vida fadada ao limbo do esquecimento. Conhecer pressupõe fracassar. Não há outra medida possível senão essa. O pilantra de ofício sabe que suas palavras são como pétalas lançadas ao vento. Podem encantar durante um breve período, mas duram pouco no ar. Acabam despencando ao chão para serem pisoteadas e amassadas pelo exército de distraídos do qual todos nós fazemos parte. Palavras, palavras, palavras! Escrevo toda essa ladainha e me dou conta de que estou remoendo sem perceber as crises de consciência do jovem Hamlet. E essa crise é justamente aquela que faz parte do ofício do ator – como dar conta de ser verdadeiro se a matéria prima da construção do personagem parte sempre da mentira? Sabe qual é a raiz etimológica da palavra ‘ator’, caro leitor? [Rimou]. Respondo: Ator = Hipócrates = Hipócrita = Aquele que finge ser o que não é (tudo no dicionário, confira!) Não é incrível? Para dar conta de uma verdade suprema, a da nossa inconstância e efemeridade, temos que recorrer ao que não existe, a poesia como ferramenta de algo que passa longe da comprovação científica. Enfim, fuja da verdade para que alcance alguma resposta que lhe seja minimamente verossímil no que se refere ao conteúdo concreto da vida. O pilantra é o único que se salva, caro leitor! Sejais vós, leitores, também um bando de pilantras! Nessa aula de filosofia de botequim, acho que acabei falando mais do ator e menos do professor. Gostaria de dedicar mais linhas a essa nobre profissão. Mas deixo para amanhã. Quinta feira é o dia do professor. Não percam a aula! E não terei piedade com quem chegar atrasado! Tenham todos um bom dia. Dispensados!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Chuva ácida no cocuruto do Cristo...



(Play) O Rio de Janeiro continua liiiiindo. Alô, alô Terezinha... (Pause) Tchuru ru ru. Aquele abraço, caro leitor. Quem vos fala é o jovem guerreiro (velho é a mãe!), aquele jovem que teve a brilhante e mal gerida ideia de vos escrever algo uma vez ao dia. E só escrevo unicamente para satisfazer vossa lacuna diária de poesia. Do contrário, desistiria já. Sou altruísta! Preocupo-me com você. Se é para o bem geral de todos e felicidade geral da nação, eu fico! Eu sou um poeta! Sirvo-te, pois então. Aquele abraço a todos que me lêem. Não mando beijo porque beijo não tá na música. E também eu não te conheço a ponto de sair beijando. Um abraço já está de muito bom tamanho. Nada de chororô, sinta-se feliz. Afinal, também não saio abraçando todo mundo, só abraço gente como você, que lê meu blog. E você não está sozinho. Praticamente toda uma China comunista lê o meu blog. Sou o único blogueiro autorizado pelas autoridades do Xing-Ling a desbravar as terras virtuais do Mao Tsé-Tung, eu e o Marco Polo. A única exigência é que eu continue a escrever em português. Aceitei! Não sou bobo nem nada. Mas chega de peripécias onomatopaicas e vamos direto aos eufemismos metafóricos que recheiam de conteúdo esse périplo intelectual. Ontem prometi uma homenagem ao Rio de Janeiro, mas foram tantas emoções... aliás, está aberto o concurso de seleção de terroristas para afundar com torpedos nucleares o cruzeiro do Roberto Carlos no próximo verão. Para quem não for classificado na primeira lista, haverá uma repescagem para garantir vaga no coral que entoará o ‘Jesus Cristo eu estou aqui’ enquanto o Rei afunda com a embarcação. Pobre Celine Dion, perdeu o trono. Vamos ao que importa. Havia reservado uma homenagem ao Rio de Janeiro para ontem. Não deu certo. Me enrolei. E como hoje é terça e terça nunca é dia de homenagens, permaneço com o tema e abandono a homenagem. Ao invés de confetes e purpurinas, vou de chuva ácida! O Rio de Janeiro é um negócio que nunca vai dar certo. Alguém duvida? Calma lá! Não falo dos cariocas! Os cariocas são vítimas. Vítimas de um estigma maligno que envenena o solo fluminense. Uia! Falei agora como um arauto de tragédia grega! Mas a tragédia de hoje é em terra tupiniquim. Na verdade, não é a terra propriamente o local onde o problema se encontra. Ao contrário. A encrenca galgou morro acima e foi se instalar no topo da montanha. No topo desse nosso Olimpo-de-bananas encontra-se o Cristo Redentor! É o Cristo Redentor, senhores, a figura que empaca a vida dos habitantes da baía de Guanabara. Explico. Não é possível uma cidade dar certo quando um respeitável sujeito de pedra-sabão se posta dignamente no corcovado para lá de cima gritar com seu vozerio à La Cid Moreira aos anõezinhos cá de baixo: ‘Liberô geral, meu povo!’ Sim, porque é exatamente isso o que acontece quando o Divino abre os braços. Se Ele não abrisse os braços o Rio de Janeiro estaria a salvo. Mas Ele abre. Um abraço da condenação. Uma atitude altamente reprovável quando o alvo é a humanidade. E o que mais me deixa indignado é ter eu, um pobre mortal, a obrigação de alertar o Criador do seu retumbante equívoco! Será que Ele já se esqueceu do que diz o oitavo pecado capital? Lembro-te, ó Senhor! O oitavo pecado capital é justamente esse: ‘jamais sejais condescendente com a pilantragem do próximo.’ E afinal não é isso o que acontece? Basta um condenado cometer alguma infração para depois olhar pra cima e se sentir absolvido pelo terno abraço do Cristo. É esse abraço redentor que rebenta com a vida dos cariocas. A pilantragem é tão deslavada na terra do Chacrinha que não há pudor algum em se expor publicamente as vergonhas. Os pecados vestem tangas no Rio de Janeiro. Os vícios se enfiam no loló tal qual shortinhos das popozudas do funk. E quem de vós, caros leitores, é capaz de achar alguma solução para quem gosta de um pancadão? Não! O funk é a UTI do mundo. Morte cerebral! Morte cerebral sem qualquer possibilidade de doação de órgãos! Quem aceitaria receber um coração bate-estaca-do-tigrão? Tudo podre! E assim, cada um é convidado a rebolar suas desmoralidades na praia do tudo-vale! Não é a toa que ‘Vale-Tudo’, a novela, também tinha como cenário o Rio de Janeiro. E além disso tem essa coisa do corpo malhado na academia. O vício é tão idolatrado que precisa ser talhado para virar motivo de orgulho. Já que é para mostrar os pecados, que eles estejam então bem definidos e visíveis! Tudo por culpa de um abraço que vem lá de cima! Alô, alô Terezinha... aquele abraço! Lembra, caro leitor, daquele filme fatalista chamado ‘2012’? Nesse filme há uma cena em que o Cristo Redentor aparece desmoronando. Hollywood queria falar do fim do mundo e acabou dando a solução para o Rio de Janeiro. Porque assim não dá! Ou alguém acredita que depois das Olimpíadas o Rio de Janeiro vai se emendar? Eu não acredito! Só acredito nessa redenção quando o Redentor vier abaixo. Abaixo ao Redentor! Não sei nem porque faço essa campanha! Não moro no Rio de Janeiro. Não sou carioca. Não moro no Rio de Janeiro nem sou carioca. Mas sou sensível a dor alheia. Sou um poeta de sensibilidade à flor da pele. Veja, não digo que não haja pilantragem aqui onde eu vivo. Ao contrário. Aqui a pilantragem corre solta. Talvez haja mais pilantragem aqui do que no Rio de Janeiro. Eu mesmo sou um pilantra. Mas aqui os procedimentos de fabricação da pilantragem são diferentes. Diferentes e mais dignos da nossa imagem de bons moços. E nessa vida, imagem é tudo. Em matéria de sacanagem os procedimentos são tudo! A sacanagem aqui é de gabinete, muito mais educada, refinada e condizente a um filho pródigo que não precisa recorrer a abraço redentor algum. Ao invés de abraçar o Salvador, fuzilamos o vizinho. É um método mais avançado de civilidade. Mais avançado justamente porque o Divino está bem longe. É isso que nos salva. Aqui não existe o famoso ‘cada um por si e Deus por todos’. Aqui preferimos o ‘cada um por si’ e Deus que se manque! Jamais o vício veste sunga por aqui. Aqui encobrimos nossa vergonha com terno e gravata. Uma vestimenta muito mais sofisticada. Quanto mais sofisticação, mais pecados hediondos. É isso! Os pecados do Rio de Janeiro pertencem a pré-escola da cafajestagem, não tem qualquer glamour, são de fácil condenação. É por isso que o Rio de Janeiro vive patinando na vitrine da corrupção de botequim. Quem elege um Garotinho e uma Rosinha como governantes não pode estar falando a sério! Aqui preferimos um Maluf! Maluf é um nome que carrega uma dignidade infinitamente maior. Maluf é árabe. Todo árabe merece respeito, por mais pilantra que seja. Não se come uma esfiha de boca aberta, repare! Maluf é um Don Corleone. Garotinho e Rosinha são companheiros do Bob Esponja. Aqui, longe do Rio de Janeiro, somos muito mais civilizados. Mas essa não é uma característica intrínseca a nós. Não, não. Só chegamos a esse patamar de evolução porque não tivemos contra nós um Divino de braços abertos. Aqui não há Cristo Redentor. Ninguém acredita em redenção por aqui. Somos canibais mesmo, sem fingir absolvição. É isso que falta ao Rio de Janeiro para se emancipar. Nenhum monumento no mundo é tão ultrajante como o Cristo Redentor. A estátua da liberdade aponta a tocha para cima num gesto de ‘para o alto e avante!’. A torre Eiffel é uma esfinge de sobriedade metálica. A própria esfinge do Egito é um gatão sem nariz. Nenhum deles dá a mínima para os seus habitantes. Não há condescendência possível. O erro do Cristo Redentor é olhar para baixo e abrir um abraço, dizendo: ‘vinde a mim, ó criancinhas’. Alô, alô torcida do flamengo: aquele abraço! Eu gosto da terça feira porque na terça feira eu me dou o direito de praticar minha acidez. Sou ácido. Ácido e pilantra, como já disse. Quer uma prova? Hoje não, amanhã. Amanhã lhe dou uma prova irrefutável da minha pilantragem ácida. Quarta feira é dias das provas irrefutáveis. Hora de estudar para a prova de amanhã. Até lá...    

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Segunda feira, dia de homenagem.


Segunda feira. Segunda feira é dia de homenagens. Começo a semana sempre inspirado, com vontade de homenagear alguém ou alguma coisa. Termino a semana com vontade de chacinar quase a totalidade do contingente populacional desse planeta, incluindo os camarões. Camarões são baratas-salgadas-do-mar. Não entendo como alguém pode almoçar camarões. Comer camarões é o mesmo que enfileirar três personagens do Kafka num espetinho e servir no churrasco do fim de semana. Croc! Croc! Croc! Se não engolir as anteninhas não tem sobremesa! Sou bi-polar. Na segunda feira sou adorável. Na sexta, abominante – acabei de cunhar o termo ‘abominante’ somente em caráter gramatical de urgência para se evitar a rima inevitável com ‘adorável’ [obs: meu herói preferido dos quadrinhos é o Capitão Márvel]. Na hecatombe semanal provocada por mim, só os labradores sobrariam pra contar a história. Os labradores são inocentes. Você não é inocente, caro leitor. Se acha que é inocente é porque é o pior dos culpados. Pergunte a um labrador se ele se acha inocente. Ele não vai responder. Se acusá-lo de crime, então, receberá no máximo um lambidão em troca. É preciso muita grandeza moral para devolver um lambidão quando se é acusado de algo. Os labradores não tem culpa de nada, são praticamente madres-teresas-de-calcutá em forma de focinho e rabo. Alguém já viu um labrador no banco dos réus? Pois então, em matéria de cachorrada somos nós, humanos, os animais – e não foi que noutro dia sequestraram o Zeca, um pobre de um cachorro manso que mal se deu conta de que estava sendo alvo de um crime hediondo? Seqüestrar cães é um crime mais que hediondo. Hediondo é termo para nós, humanos. Todo humano é hediondo. Os cães são peludos. Peludos e inocentes. Os labradores são inocentes justamente porque não fazem a menor ideia que o são. Só nós temos essa mania deplorável de nos absolver – ‘todos são inocentes até que se prove o contrário’. Grande bobagem! É exatamente por respeitar a essa regra que incorremos nas mais terríveis crueldades. Em nome da inocência os inocentes derramam toneladas de sangue, sempre acusando suas vítimas de serem os culpados. Sempre foi assim. Eu faria diferente. Todos seriam culpados até que se prove o contrário. Como eu não acredito em inocentes nessa nossa espécie de sapiens, a brincadeira serviria ao menos para nos manter ocupados. Uma espécie de jogo do milhão para condenados. Se o vencedor não se salva, ao menos fica rico. Foi dessa brincadeira que surgiu a Daslu, nosso Carandiru-do-glamour [estou afiado nas rimas!] Chega de sentenças, senhores membros do júri! Hora das homenagens. Vamos então as homenagens de hoje. Segunda feira é sempre dia de homenagens! Que rufem os tambores! Pode parar de rufar, já deu! A minha homenagem de hoje vai para o Rio. Não o rio Tietê. Pinheiros também não. O Aricanduva eu não sei nem onde fica, embora tenha fortes suspeitas de que o budum deste não foge a regra dos outros dois. Será que o rio Aricanduva tem algo a ver com o bairro Aricanduva? Se tiver, pura coincidência. O meu troféu de hoje não vai para nenhum rio fedorento, vai para o Rio de Janeiro – se bem que da última vez em que lá estive a fragrância da cidade passava longe dos aromas de Paris. Nunca fui a Paris, mas disseram-me que se há alguma cidade nesse mundo fedorento que não fede, essa cidade é Paris. Coitada de Veneza, um esgotão a céu aberto – sorte que as gôndolas salvam tudo. Não as gôndolas de mercado, as que bóiam. Bote umas gôndolas navegando no Tietê que o fedor vira charme. Já não disse antes que tudo nessa vida é uma questão de charme? Mais importante que a inteligência, é o charme a locomotiva do sucesso. Ou vai me dizer que você acha o Silvio Santos inteligente? Tire-lhe o laquê do topete que o seu império desmorona, levando o Bozo e o Chaves junto. E você, caro leitor, qual é o seu charme? Depois você responde, agora não dá! Vá fazer o favor de interromper o raciocínio da senhora sua avó! Comigo é assim: pá pum! Que entrem os trompetes! A homenagem de segunda feira vai para o: Rio de Janeiro... não digo que nunca irei homenagear o Tietê ou o Pinheiros (O Aricanduva não sei onde fica), mas se o fizer agora irei parecer uma capivara nostálgica, dessas que com olhos marejados recordam seus ancestrais nadando de braçadas por debaixo da ponte das Bandeiras. Hoje, coitadas das capivas, só dá pra apostar corrida pulando de sofá em sofá e com um pregador no focinho. Já reparou, caro leitor, que a capivara é um bicho que todos querem bem? Mesmo sem nunca antes termos dado de comer a uma capivara ou sequer afagado o seu cocuruto, consideramos a capivara um bicho do bem. Ainda que um rato-gordo, a capivara nos gera um terno sentimento afetivo. E sabe por que? Justamente por causa do tamanho. O tamanho a deixa aprazível aos olhos humanos. O tamanho a absolve da nojeira de seu parente intruso, a ratazana, e a eleva ao status de roedor admirável! E o que os dois, a ratazana e a capivara, tem de tão diferente? Nada, excluindo a participação da capivara naquele famoso filme ‘Querida, aumentei o ratão’, ambos se solidarizam nas sequências genéticas que carregam. Isso me leva a pensar que o equívoco, quando elevado a proporções homéricas, vira imediatamente motivo de admiração. Quando o erro se torna gigantesco ele se emenda, pode reparar. E isso acontece também com as figuras humanas. O duro da vida é esse contingente de funcionários públicos, verdadeiros camundongos que não fazem outra coisa senão correr para dentro de suas tocas depois de beliscar um pedaço de queijo preso na ratoeira. Funcionários públicos, em sua grande maioria, são burocratas pequenininhos que contaminam a vida alheia com equívocos miseráveis. A podridão da máquina não está nas suas grandes engrenagens, mas nos pequenos parafusos defeituosos que a sustentam. Hitler era um doido, mais demente que o próprio era o contingente de anônimos que o saudava quando o bigodinho escovado do chefe passava em revista.  Agora, veja o Cachoeira! Esse não! Um pilantra brilhante! Quase um personagem de blockbuster americano! Antes todos seguissem o exemplo desse cafajeste! O mundo seria muito melhor. O Cachoeira é a capivara do crime. Eu prefiro me equivocar ao extremo a ter de carregar pedacinhos de queijo para dentro da minha toca. O mundo de hoje exige a presença dos grandes personagens equivocados, já que os heróis ficaram para trás desde a aposentadoria da franquia do super-homem. Falando em herói, lembro de belos exemplos. E belos exemplos exigem palmas. Não há homenagem sem palmas. Mas agora já está tarde demais. Deixemos para amanhã o nosso Rio de Janeiro!

domingo, 3 de junho de 2012

Não desbundo, nem solto a franga! Sou inglês...



Ele disse aquilo rápido, de repente, sem aviso prévio, assim como um peteleco no meio da orelha. Ninguém está pronto para um peteleco na orelha. Peteleco dói. Na orelha, então, dói ainda mais. Um peteleco pode ofender mais que uma muqueca na orelha. Eu prefiro ser chamado dos piores nomes a receber um peteleco na orelha. A dor moral não é nada comparada a dor de um peteleco. Mas o que recebi naquele instante não foi um peteleco, foi na velocidade de um peteleco, mas não um peteleco. Antes fosse um peteleco aquilo que estava prestes a receber. Aquilo doeu, acertou bem no alvo do meu eu. [Adoro enrolar o meu leitor no preâmbulo do texto só pra saber se ele gosta realmente de mim. Se chegou até aqui, é porque gosta. Eu gosto de ser amado, se não houver admiração por mim, nada feito. Se achou esse meu comentário arrogante e prepotente, vá embora! Desista de mim. Se quiser continuar é porque me ama. Adoro ser amado. Eu mereço!] Vamos ao que interessa! Cenário: dentro de um carro. Situação: Volta para casa depois de ir ao teatro. Personagens: Eu e + 3, não citarei nomes para não elevar à fama os coadjuvantes do enredo, afinal, eu sou o protagonista e o único com direito aos louros do estrelato. AÇÃO! Estava no banco de trás do veículo e o sujeito ao lado do motorista me lança aquilo que fazia tempo que não ouvia a meu respeito: 'o dia em que você desbundar você decola, só falta você desbundar...' Sempre ouvi a mesma coisa, desde os tempos da faculdade: 'desbunde, meu filho, só falta você desbundar'. Será que a razão de eu me encontrar nesse limbo miserável é porque eu não desbundei na minha juventude? E se eu tivesse desbundado aos 18 anos, hoje estaria rico e famoso? Meu Deus! Eu deveria ter desbundado e não desbundei! O tempo parou. Pausa dramática! Sentado no carro, virei uma esfinge egípcia de ódio com a minha recusa injustificável em desbundar nos idos anos do passado que não volta. Rapidamente passou um filme pela minha cabeça, desses que a gente vê quando está prestes a empacotar – primeiro o túnel com a luz ao fundo, depois o filminho-brega da sua triste vida em retrospectiva. Se no seu filminho a trilha sonora estiver a cargo do Michel Teló, peça pra pular a projeção, você vai direto pro inferno. Será que só o moribundo assiste a esse filme-de-presunto, ou convidados aparecem na platéia pra rir também da sua vergonha? Eu não quero convidado nenhum. A vida é minha. Só eu tenho direito de chorar ao ver o dia em que vomitei na mesa porque minha mãe obrigou-me a comer camarão. Camarão é um bicho-antenudo-do-mar, mais conhecido como barata-salgada, que nem na hora da morte irei perdoar! Do mar para as penas. A verdade é que desbundar tem a ver com soltar a franga. E eu não solto franga nenhuma, não sou obrigado. Onde está no contrato que é preciso, em algum momento da vida, soltar a franga? Não que eu não tenha uma franga presa sob os meus domínios, todos tem uma franga, mas soltá-la ao Deus dará pra virar frango de macumba na primeira encruzilhada... ah não! Franga minha eu preservo, dou de comer, faço dormir no meu travesseiro, ensino os bons costumes. Franga minha toma chá às 17hs, todos os dias. Minha franga é Chicken, porque eu sou inglês. Até a rainha da Inglaterra tem uma frangona por debaixo daquele vestido de realeza. Agora, pergunte pra mim quando foi que a rainha soltou sua Chicken-Queen pra ciscar pelos jardins de Buckingham... perguntou? Respondo: nunca! Inglês não sai por aí soltando a franga. Eu sou inglês. A cegonha me derrubou por acaso quando passava pelo Brasil, depois de tomar um tabefe tropical provocado pelo vilão El-Niño. Eu não tenho nada a ver com a Carmen Miranda. Não existe nenhum cocar de bananas no meu guarda-roupas. No carnaval eu viro uma freira carmelita. No meu guarda-roupas tem fraques, cartolas, bengalas e um cachimbo. Sou inglês. Só solto a franga depois da troca da guarda real, e na intimidade do meu toucador. Tem uma peça em cartaz que se chama ‘Macumba Antropófaga’. Não vou ver. Nem amarrado saio de casa pra uma sessão de macumba antropófaga. Não sou antropófago, com todo respeito aos modernistas. Sou antropô, se você quiser ficar responsável pelo pófago, o problema é seu, vá fagocitar o que quiser, mas longe de mim. Não rebolo e não faço macumba. Se macumba fosse coisa boa não se chamaria má-cumba, seria boacumba. É isso! Em tempos de macumba, quem prende a franga é rei! Sou o anti-desbundador assumido! Não desbundarei por nada nessa vida! Enquanto isso, o meu talento decola...

sábado, 2 de junho de 2012

Eu prefiro ser anão do que cego!


Eu prefiro ser anão do que cego. Essa é uma das minhas máximas irrevogáveis. Já pensei em fazer um adesivo com a tal frase e colar no meu carro. Sou sádico assumido. Qual é o problema? Não sou politicamente-correto e gosto de quem experimenta praticar um sadismo poético em doses homeopáticas. A homeopatia nesse caso é fundamental, senão você corre o risco de abandonar a poesia e reencarnar o alemão do bigodinho escovado. Eu sou poeta, não se preocupe, trabalho no campo do simbólico. O simbólico me salva. No simbólico tenho o direito (e o dever) de ser  sádico até a última gota do néctar vermelho que corre nas minhas veias - olha que bonita essa imagem: néctar das minhas veias! Eu sou um poeta! Sou um Poeta-do-sádico, mas ainda assim, poeta. Essa é a graça do homem inteligente, basta um empurrãozinho para abandonar a correção e vestir a capa do vilão grotesco, e se não fosse esse precário equilíbrio entre o que é luz e o que é trevas, não haveria inteligência possível. O principal ingrediente da inteligência é o sadismo. Eu sou inteligente (sorry!). A penumbra é o lugar do homem inteligente. O homem inteligente bota o nariz na luz para depois recolher-se na sombra. As antas são claras, translúcidas, de uma toupeirice cristalina, tomam sol direto no focinho sem vergonha alguma - no dia seguinte estão vermelhonas porque se esqueceram do protetor solar. Você nunca encontraria um homem inteligente rolando na areia da praia feito um bife à milanesa. Os inteligentes estão sempre debaixo do guarda-sol. Quem é realmente inteligente não recusa nunca o desequilíbrio, pode reparar! Já com as antas, na primeira oportunidade, fincam as patas no chão e criam raízes de fazer inveja a uma seringueira da Amazônia. Toda anta é boazinha. Desconfio dos bonzinhos. Os bonzinhos são quase sempre burros, previsíveis, mentirosos, perigosos e chatos. Aliás, tenho medo dos bonzinhos. Morro de pavor desses beatos que correm atrás de uma estátua religiosa do padroeiro-não-sei-das-quantas. Tenho a nítida sensação de que todos são seriais-killers fugitivos de uma penitenciária de segurança máxima à la Bangu 1. Padinho Ciço era da máfia, tenho certeza. Os sádicos assumidos não! Os sádicos assumidos são inofensivos. Todos somos sádicos, mas só os assumidos são inofensivos. Eu sou um sádico assumido, um poeta e um homem inteligente (sorry!). Você que me lê também é sádico, se não fosse sádico já teria parado de percorrer essa minha ladainha logo no título. Agora só resta se assumir. Saia desse armário do politicamente-correto e ganhe sua carta de alforria em nome do obscuro! Mas não precisa se afogar nesse seu pecado horroroso, caro leitor. Mais merecedores de castigo são os castos. Todo casto é um obsceno, já diria o mestre. É só olhar para a cara o papa que você vai me entender. Quando olho para a cara do papa eu dou graças à Deus por saber que o Cão me espera no inferno. Já imaginou passar a eternidade com o papa no céu? Eu prefiro mil vezes sair pra passear com o Cão pelas encruzilhadas do subsolo. Eu adoro cachorros, vou com eles até o purgatório se precisar... e se o Cão for realmente um cão, eu selo meu destino agora: vou pro inferno! Voltemos ao nosso assunto. Como já dizia, eu prefiro ser anão do que cego. Isso por uma razão muito simples: os cegos são mais inteligentes que todos nós, videntes. E isso me desperta um medo atroz. Mas essa é uma inteligência especial, sensitiva, diferente daquilo que forma o argumento intelectual. Quer ver a prova? Édipo só fura os olhos porque se torna sábio, porque descobre que não há mais nada por conhecer. Édipo vira espírito depois de cego, vaga pelos campos como um espectro que tudo sente, tudo vê e tudo sabe sem precisar fazer uso dos olhos. Tirésias, outro personagem da história, só é um oráculo porque não enxerga. É ele, antes de todos, quem pressente a tragédia do protagonista. E esse talento é ditado pela cegueira. Bote umas retinas saudáveis no pobre Tirésias que o velho instantaneamente perde todo o seu potencial dramático. Mas chega de poesia! A verdade é que num belo dia, ao passar numa rua dirigindo meu carro, flagrei uma fila de cegos sendo liderada por um outro, pasmem!, cego - um cego-líder. Quase bati o carro de desespero! Não pelos cegos, mas pela cena. Uma matilha de filósofos-espectrais andando numa calçada de SP! Mais tarde, no mesmo dia, contei pra alguém o que havia visto e a pessoa prontamente me recriminou com um: 'seu insensível! Por que não foi ajudar os coitadinhos?' Eu respondi rapidamente, ainda embevecido pelo terror catártico da cena recente: 'de jeito nenhum! Vai que os cegos resolvem me seguir?'. Eu tenho pavor de filósofos. Os cegos são filósofos! Tudo sabem, tudo conhecem. Eu prefiro ainda ser um homem inteligente que sabe que é burro, ainda preciso ler para conhecer, ver para crer. Essa é a diferença do burro para o inteligente: o burro nunca sabe que é burro, ao passo que todo inteligente tem total consciência da sua jumentice. Quanto ao anão... ah! Deixa pra lá! Obs: favor não ler esse depoimento para nenhum cego, eles já sabem o suficiente para não se incomodar com essa filosofia-de-botequim...

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Saudades da Idade Média, tempos em que não se fazia média...



Queria ter nascido na Idade Média. Não se deixe levar pelo nome, na Idade Média ninguém fazia média... média fazemos nós, eu e você, escravos do contemporâneo - eu sou um escravo do contemporâneo e você também é, quer ver? Estou escrevendo essa minha ladainha num Imac. E se você está lendo isso, perdoe-me a triste sentença, mas também é um escravo... eu e você, dois belos escravos (eu sou belo, eu me garanto, e você? É bonitinho?). Tecnologia não liberta coisa nenhuma, muito menos democratiza o que quer que seja. Tecnologia cria a escola superior de se fazer média. Todo mundo que usa esse negócio chamado computador é especialista em fazer média. Dificilmente algum escravo desse nosso triste tempo sai de peito aberto ao campo de batalha. Não há mais campos de batalha, com exceção do Pacaembu em noite de derrota do Corinthians na Libertadores... aí o bicho pega (sou corinthiano, não venha gozar do meu timão, só eu tenho esse direito!). Voltemos ao assunto. Na Idade Média havia uma infinidade de campos de batalha! Ou você afiava a sua lança ou provavelmente terminaria lambendo a grama, com a jugular aberta. Se fosse comprar pãozinho na padaria da esquina, era bastante  aconselhável levar junto sua espada e seu escudo, afinal, vai que...? E Hoje? Hoje se compra pãozinho na padaria na maior ingenuidade, sem nenhum teor dramático! Que desperdício!   Acabaram-se os campos de batalha, sobraram as lan-houses, verdadeiros calabouços de prisioneiros fazedores de média. O homem dos nossos dias é o politicamente-correto, o anti-Idade Média por excelência, alguém burilado no talento de morder e assoprar ao mesmo. Ah que saudades da Idade Média! Tempo em que se resolvia tudo na base da fogueira! Imagine se existiria CPI na Idade Média! Qualquer cachoeira seria apagada num instantinho assim: schhhhhhhhhhhhhh. Isso! Não se fazia média na Idade Média. Quando digo que gostaria de ter nascido na Idade Média, basta eu virar a esquina para cruzar com a seguinte réplica: 'Ah é? E quando o senhor tivesse uma dorzinha de dente mixuruca, como faz? Aposto que pegaria correndo uma carona com Marty Mcfly de volta pro futuro'. Não faria isso, não! Nem que a rainha da Inglaterra aparecesse com seu Rolls-Royce pra me buscar eu voltaria (e olha que eu sou inglês de sangue azul, tenho especial apreço pela turma de Windsor). A grande benção da Idade Média está na inauguração da mula como meio de transporte. Eu prefiro ter uma dor de dente lancinante a ter de enfrentar a 23 de Maio todo dia. Aliás, eu prefiro arrancar todos os dentes a ter de ficar parado na 23 de Maio... pensando bem, eu arrancaria minha cabeça fora pra evitar me congestionar na 23! Viraria uma mula-sem-cabeça, personagem da Idade Média, mas estaria livre do trânsito. Hoje não temos mulas porque é muito asno ao volante pra competir com tanto relincho de ignorância. Imagine um congestionamento de mulas na Idade Média! Devia ser o maior barato... ao menos daria pra coçar a crina do bicho enquanto o farol não abrisse. Shakespeare só virou Shakespeare porque desfilou pela Idade Média... coitado do Shakespeare se vivesse nos dias atuais, teria de dar conta do horário nobre das nove  horas pra escrever melodramas de botequim. Eu sou mais adepto das bruxas metafísicas do rapaz de Stratford Upon Avon. Ah! Gostaria de ser um personagem medieval! Não faço questão de fazer um mártir, não... deixo as lágrimas para a Joana, a Dark. Poderia interpretar um desses equivocados que acreditava que a terra era o centro do universo, abrindo a bíblia pra justificar que o homem foi feito do barro divino. Imagine que maravilha entrar para a história como um personagem redondamente equivocado? Muito melhor do que morrer feliz na filosofia politicamente-correta de hoje (minha mãe quer que eu me aposente como funcionário público, o que eu faço?). Monstros no fundo do mar, oceanos misteriosos, bruxarias (muito antes do mago Paulo Coelho andar pelo caminho de Santiago com um falcão pendurado no ombro), feitiços... ahhh eu não me importaria em jogar o conteúdo do meu penico pela janela! Gostaria de ter nascido na Idade Média!