Quer ser professor? Dica valiosa: tenha um bigode. A relação
é direta. O bom professor deve necessariamente apresentar um bigodão logo
abaixo do nariz. Bigode no andar debaixo do cheirador? Não me diga? Afinal, em
qual outro recanto desse nosso sítio cutâneo poderia haver abrigo para o senhor
bigode? Caso tenha pensado em alguma pornografia o problema é todo seu, caro
leitor. Eu estou preocupado com o espiritual. O corpo não vale o investimento,
a terra há de comer – já pensou o tamanho do banquete que os vermes hão de
fazer quando chegar o dia de jantar o loló da Rita Cadilac? Por isso que eu
faço questão de afinar regularmente o meu esqueleto. Não dou alegria pra
ninguém em vida, vou agora virar motivo de homenagem no túmulo? Se bem que todo
morto vira santo. Todo morto é aplaudido de pé. Até verme vai à missa de sétimo
dia com o terço na mão. E basta um canalha morrer pro papa abrir um processo de
beatificação. Se o Cachoeira empacota, o pontífice o transforma em chafariz de
água benta no instante seguinte! E a fonte-santa vira ponto de peregrinação,
com milhares de fieis andando em volta aos gritos de ‘Aleluia ó H²O do
Olimpo!’. É por isso que a indústria dos santos anda de vento em popa mesmo em
tempos de crise. Presunto não liga pra crise alguma. Presunto continua saindo
que é uma beleza. E todo presunto vira santo. Sorte dos porcos que devem ter um
chiqueiro só deles no céu. Mas chega de humor-de-presunto! Brás Cubas é infinitamente
mais talentoso nesse quesito do que esse humilde servo das letras-pagãs que vos
fala. Como ia dizendo, professor que é professor estampa um bigode no focinho.
O bigode é um atributo corporal, correto, mas é ao mesmo tempo a ponte para o
espírito. O bigode é a carta de alforria do sujeito preso à ignorância. O
bigode é o elixir filosófico, a passagem secreta entre o terreno e o
supra-sensível, o cartão vip que dá acesso ao camarote do Oráculo de Delfos.
Não há por onde fugir, caro candidato ao magistério, se quiser ser professor,
embigode-se! Mas atenção! Cuidado com o cavanhaque! O cavanhaque poderá levá-lo
a outra profissão num estalo de dedos. Motoboys tem cavanhaques. E nenhum
professor vai querer associar sua nobre causa com o delivery do Habibs. O
professor é o arauto do saber, não o mensageiro da esfiha. Se bem que dependendo
do professor qualquer mesa de bar chinfrim vira estágio em Harvard. Nesse caso,
quando o estômago vence, quase sempre a culpa é do mestre, que inadvertidamente
se esqueceu de estampar o bendito do bigode. O bigode é a vestimenta moral, o
anel de Nibelungo do saber, a pedra filosofal dos boletins acadêmicos. A
gilete, por sua vez, é criptonita do corpo docente, a encruzilhada da reputação
abstrata, o juízo final da emancipação do espírito. Não há nada pior do que um
professor ver a sua reputação ser colocada em xeque. Para evitar tal
inconveniente, não hesite em deixar crescer sua palhoça acima do lábio
superior. Não é bobagem o que digo, caro leitor. Um homem de cara lavada não é
respeitado pelo que sabe, pode reparar! Pode até ser o Einstein, mas se tiver a
cara limpa, fracasso total, não imprime respeito algum. Einstein, aliás, era um
emérito representante da bigodície científica. Tire-lhe o bigode e o E=MC² vira
domínio público. Insisto. Com o bigode tudo se altera. Até uma
anta-onomatopaica ganha mais respeito quando se embigoda. Entre numa sala de
aula com um bigode e imediatamente conseguirá discorrer sobre os mais variados
temas, desde o imperativo categórico de Kant, passando sobre os perigos e
vantagens do uso sistemático do acelerador de partículas da física nuclear e
até sobre qualquer outra coisa que faria um ganhador do Nobel render-lhe
reverências. Eu tenho bigode. Não sou bobo nem nada! Agora, como ficam as
mulheres nessa história de pelos faciais? Elementar minha cara mulher barbada
do circo. Aquelas que não tiverem um buço para valorizar devem recorrer aos
bigodes postiços. A 25 de Março é mundialmente conhecida pela venda de bigodes
made-in-Taiwan. São resistentes, macios, duráveis e ainda contam com a vantagem
de poderem ser lavados e estendidos ao sol para secar – prática que deixaria
marcas vermelhonas na cara dos homens que resolvessem aderir ao hábito. Outra
coisa interessantíssima é identificar o que ocorre a uma plateia quando esta se
defronta com um polpudo bigode. Um bigode é capaz de silenciar uma feira. Se
Moisés tivesse um bigode não precisaria recorrer ao Salvador para abrir
passagem pelo Mar Vermelho. O bigode daria conta desse obséquio sem maiores
esforços. É incrível a capacidade persuasiva de um bigode. Hitler, Stalin,
Osama, Sadam e todos os malucos que já passaram pela história do nosso planeta
tinham um bigode. E isso por uma única razão: o bigode convence. Ninguém duvida
de um bigode. Pode ser o lunático que for, se carregar um bigode estará
absolvido. Quando me lembro das inúmeras tentativas de colocar por terra esses
carrascos-malucos da humanidade, constato com tristeza que ninguém imaginou a
solução mais óbvia para o sucesso na empreitada: uma navalha. Não para cortar o
pescoço, mas para aparar o bigode. O barbeiro seria o agente secreto ideal da
resistência. Mas ninguém se dá conta de perceber o óbvio. Cuidado! Não digo que
o professor deva ser um carrasco. Mas uma vez com um bigode no rosto é bom que
ele se dê conta do enorme poder de artilharia da sua taturana-narigal. Recordo
de um professor que tive. Ele era altamente equivocado, um legítimo paspalho
dentro de um terno que saia por aí vendendo fórmulas vazias de sucesso aos
alunos. Um frustrado na vida que fazia da academia o seu consultório de
psiquiatria. Pois então, não havia um desgraçado que ousasse encostar o cara na
parede e exigir a sua demissão. Tudo por conta de um bigode. O bigode desse
professor era um escudo inviolável que fazia render aplausos, nunca vaias. Mas
eu sou diferente, caro leitor. Cuido do meu bigodão por uma questão estética.
Não sou picareta. Até que me provem o contrário, não sou picareta! Mas só lhe
peço uma coisa. Não venha para cima de mim com uma espuma de barbear! Prefiro
um embate filosófico de ideias que me derrubem a ter de abrir mão do meu bigode.
Mas isso dificilmente acontecerá. Afinal, o portador de um bigode sempre vence!
Saudações bigodais!
quinta-feira, 7 de junho de 2012
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Há um pilantra dentro de nós...
Sou um pilantra. Como prova irrefutável dessa minha
qualidade, entrego ao seu conhecimento, caro leitor, as minhas duas nobres
ocupações profissionais. Sou ator e professor. Justamente as duas maiores
cátedras PhD no exercício da pilantrice aguda. O primeiro finge que acredita
para produzir verdade naquilo que não existe. O segundo acredita que ensina o
que é impossível conhecer na esperança de que os outros entendam o que ele
próprio desconhece. Só sei que nada sei. Depois de Sócrates ninguém mais
deveria ter coragem de voltar do recreio para assistir a aula de química! E por
falar em química, até hoje não faço a menor ideia do que seja 1 mol! Você sabe
o que raios é 1 mol, caro leitor? Quem nunca passou noites em claro a queimar
miolos na esperança de entender a maldita fórmula do mol, para ao final da
prova continuar na mais profunda ignorância a respeito da utilidade metafísica
desse número maçônico? A maçonaria deve ter surgido ao redor desse mistério
transcendental. E de dentro da maçonaria apareceu a teoria de que o Ronaldinho
Gaúcho joga futebol. Outro mistério insolúvel que nos acompanha até os dias
atuais. Tenho a impressão de que o enigma da esfinge é exatamente esse: ‘Para
que raios serve um mol, reles mortal? Decifra-me ou devoro-te!’. Quem souber a
resposta desbanca o Rei Édipo no comando de Tebas ou então vira imediatamente
um Buda iluminado, desses que tomam chá verde no cume de algum morro do Tibete
na companhia do Dalai Lama. Antes disso, só fazendo muita aula de ioga para dar
conta de equilibrar tamanha carga de ignorância. Quem tenta remar na contramão
da ignorância recebe de imediato o diploma de bacharel da cafajestagem.
Cafajeste é diferente de pilantra. O cafajeste acredita no sucesso do seu
empreendimento. O pilantra constrói o edifício já com o dedo no botão da
demolição. No rumo da cafajestagem, ator e o professor andam no sentido
contrário. O ator e o professor exercitam a fraude, não o sucesso. Ser ou não
ser, eis a questão. Pois é. Sou uma fraude. Mas veja bem, minha fraude é um
atributo da minha capacidade de ler o mundo, não uma contingência do meu
caráter. Porque pilantragem de caráter não é motivo de orgulho algum.
Pilantragem de caráter é moeda comum. No cardápio diário, a pilantragem vem no
prato como arroz e feijão. Honestidade é outra coisa. Honestidade é corte
nobre. Honestidade é filé mignon. Nem todos são honestos, mas pilantras somos
todos, incluindo os poucos honestos. Ninguém nasce livre da pilantragem. É como
nascer sem esqueleto. Sem esqueleto não há possibilidade de vida humana.
Tirem-me o esqueleto e eu perco num estalo de dedos a capacidade de digitar
essas linhas profundamente sábias. Não faça essa cara de quem adoraria ver para
crer, caro leitor! Não conspire a favor da fuga repentina do meu fêmur e de
seus companheiros ossudos! Quem perderia mais com isso seria você. Você e o
mundo. Tudo ficaria mais cinza e mais árido, com menos poesia! Mas eu resisto!
Vá desossar o frango do seu almoço e me deixe em paz! Mas, como eu ia dizendo, os
alicerces são fundamentais. No nosso caso, a pilantragem é o que nos mantém
erguidos. O esqueleto moral. Se nos fosse possível safar dessa triste sina,
escolheríamos não abandonar esse resort chamado terra ao cabo de algumas poucas
temporadas. Quando a diária chega ao fim não há gerente que apareça para
escutar nossos clamorosos pedidos de prorrogação das férias. A vida é uma
gincana de pilantrices. A prova disso é que ela não dura. Nesse caso, uma pedra
é mais digna e honesta que você, caro leitor. A pedra resiste ao tempo, custe o
que custar. Você poderia refutar dizendo que a pedra não filosofa, por isso é
infinitamente menos merecedora da dignidade que carregamos. É verdade. Mas
filosofar a troco de quê, pode me dizer? Já vimos que a busca sagrada pela
resposta do santo-mol não nos leva a lugar algum. Alguma coisa de reconhecida
relevância foi descoberta desde que o homem deixou de arrastar sua mulher pelos
cabelos para dentro das cavernas? Não estou computando o Steve Jobs nessa
parada nem o seu olhar sedento para os mais recentes e notáveis inutensílios
tecnológicos. Um ipad ou uma máquina de xerox não aliviam em nada a pilantragem
da nossa condição. Ao contrário. Enchem-nos de novos desejos para em seguida
ceifá-los sem dó nem piedade. Quanto mais purpurina, maior a ressaca ao final da
festa. São por essas razões que um pilantra de ofício se dá bem. O pilantra de
ofício tem por princípio desconfiar daquilo que faz, compreendendo a
impossibilidade de ter sucesso numa vida fadada ao limbo do esquecimento.
Conhecer pressupõe fracassar. Não há outra medida possível senão essa. O
pilantra de ofício sabe que suas palavras são como pétalas lançadas ao vento.
Podem encantar durante um breve período, mas duram pouco no ar. Acabam
despencando ao chão para serem pisoteadas e amassadas pelo exército de
distraídos do qual todos nós fazemos parte. Palavras, palavras, palavras! Escrevo
toda essa ladainha e me dou conta de que estou remoendo sem perceber as crises
de consciência do jovem Hamlet. E essa crise é justamente aquela que faz parte
do ofício do ator – como dar conta de ser verdadeiro se a matéria prima da
construção do personagem parte sempre da mentira? Sabe qual é a raiz
etimológica da palavra ‘ator’, caro leitor? [Rimou]. Respondo: Ator =
Hipócrates = Hipócrita = Aquele que finge ser o que não é (tudo no dicionário,
confira!) Não é incrível? Para dar conta de uma verdade suprema, a da nossa
inconstância e efemeridade, temos que recorrer ao que não existe, a poesia como
ferramenta de algo que passa longe da comprovação científica. Enfim, fuja da
verdade para que alcance alguma resposta que lhe seja minimamente verossímil no
que se refere ao conteúdo concreto da vida. O pilantra é o único que se salva,
caro leitor! Sejais vós, leitores, também um bando de pilantras! Nessa aula de
filosofia de botequim, acho que acabei falando mais do ator e menos do
professor. Gostaria de dedicar mais linhas a essa nobre profissão. Mas deixo
para amanhã. Quinta feira é o dia do professor. Não percam a aula! E não terei
piedade com quem chegar atrasado! Tenham todos um bom dia. Dispensados!
terça-feira, 5 de junho de 2012
Chuva ácida no cocuruto do Cristo...
(Play) O Rio de Janeiro continua liiiiindo. Alô, alô
Terezinha... (Pause) Tchuru ru ru. Aquele abraço, caro leitor. Quem vos fala é
o jovem guerreiro (velho é a mãe!), aquele jovem que teve a brilhante e mal
gerida ideia de vos escrever algo uma vez ao dia. E só escrevo unicamente para
satisfazer vossa lacuna diária de poesia. Do contrário, desistiria já. Sou
altruísta! Preocupo-me com você. Se é para o bem geral de todos e felicidade
geral da nação, eu fico! Eu sou um poeta! Sirvo-te, pois então. Aquele abraço a
todos que me lêem. Não mando beijo porque beijo não tá na música. E também eu
não te conheço a ponto de sair beijando. Um abraço já está de muito bom
tamanho. Nada de chororô, sinta-se feliz. Afinal, também não saio abraçando
todo mundo, só abraço gente como você, que lê meu blog. E você não está
sozinho. Praticamente toda uma China comunista lê o meu blog. Sou o único
blogueiro autorizado pelas autoridades do Xing-Ling a desbravar as terras
virtuais do Mao Tsé-Tung, eu e o Marco Polo. A única exigência é que eu
continue a escrever em português. Aceitei! Não sou bobo nem nada. Mas chega de
peripécias onomatopaicas e vamos direto aos eufemismos metafóricos que recheiam
de conteúdo esse périplo intelectual. Ontem prometi uma homenagem ao Rio de
Janeiro, mas foram tantas emoções... aliás, está aberto o concurso de seleção de
terroristas para afundar com torpedos nucleares o cruzeiro do Roberto Carlos no
próximo verão. Para quem não for classificado na primeira lista, haverá uma
repescagem para garantir vaga no coral que entoará o ‘Jesus Cristo eu estou
aqui’ enquanto o Rei afunda com a embarcação. Pobre Celine Dion, perdeu o
trono. Vamos ao que importa. Havia reservado uma homenagem ao Rio de Janeiro
para ontem. Não deu certo. Me enrolei. E como hoje é terça e terça nunca é dia
de homenagens, permaneço com o tema e abandono a homenagem. Ao invés de
confetes e purpurinas, vou de chuva ácida! O Rio de Janeiro é um negócio que
nunca vai dar certo. Alguém duvida? Calma lá! Não falo dos cariocas! Os
cariocas são vítimas. Vítimas de um estigma maligno que envenena o solo
fluminense. Uia! Falei agora como um arauto de tragédia grega! Mas a tragédia
de hoje é em terra tupiniquim. Na verdade, não é a terra propriamente o local
onde o problema se encontra. Ao contrário. A encrenca galgou morro acima e foi
se instalar no topo da montanha. No topo desse nosso Olimpo-de-bananas
encontra-se o Cristo Redentor! É o Cristo Redentor, senhores, a figura que
empaca a vida dos habitantes da baía de Guanabara. Explico. Não é possível uma
cidade dar certo quando um respeitável sujeito de pedra-sabão se posta
dignamente no corcovado para lá de cima gritar com seu vozerio à La Cid Moreira
aos anõezinhos cá de baixo: ‘Liberô geral, meu povo!’ Sim, porque é exatamente
isso o que acontece quando o Divino abre os braços. Se Ele não abrisse os braços
o Rio de Janeiro estaria a salvo. Mas Ele abre. Um abraço da condenação. Uma
atitude altamente reprovável quando o alvo é a humanidade. E o que mais me
deixa indignado é ter eu, um pobre mortal, a obrigação de alertar o Criador do
seu retumbante equívoco! Será que Ele já se esqueceu do que diz o oitavo pecado
capital? Lembro-te, ó Senhor! O oitavo pecado capital é justamente esse:
‘jamais sejais condescendente com a pilantragem do próximo.’ E afinal não é
isso o que acontece? Basta um condenado cometer alguma infração para depois
olhar pra cima e se sentir absolvido pelo terno abraço do Cristo. É esse abraço
redentor que rebenta com a vida dos cariocas. A pilantragem é tão deslavada na
terra do Chacrinha que não há pudor algum em se expor publicamente as
vergonhas. Os pecados vestem tangas no Rio de Janeiro. Os vícios se enfiam no loló
tal qual shortinhos das popozudas do funk. E quem de vós, caros leitores, é
capaz de achar alguma solução para quem gosta de um pancadão? Não! O funk é a
UTI do mundo. Morte cerebral! Morte cerebral sem qualquer possibilidade de
doação de órgãos! Quem aceitaria receber um coração bate-estaca-do-tigrão? Tudo
podre! E assim, cada um é convidado a rebolar suas desmoralidades na praia do
tudo-vale! Não é a toa que ‘Vale-Tudo’, a novela, também tinha como cenário o
Rio de Janeiro. E além disso tem essa coisa do corpo malhado na academia. O
vício é tão idolatrado que precisa ser talhado para virar motivo de orgulho. Já
que é para mostrar os pecados, que eles estejam então bem definidos e visíveis!
Tudo por culpa de um abraço que vem lá de cima! Alô, alô Terezinha... aquele
abraço! Lembra, caro leitor, daquele filme fatalista chamado ‘2012’? Nesse
filme há uma cena em que o Cristo Redentor aparece desmoronando. Hollywood
queria falar do fim do mundo e acabou dando a solução para o Rio de Janeiro. Porque
assim não dá! Ou alguém acredita que depois das Olimpíadas o Rio de Janeiro vai
se emendar? Eu não acredito! Só acredito nessa redenção quando o Redentor vier
abaixo. Abaixo ao Redentor! Não sei nem porque faço essa campanha! Não moro no
Rio de Janeiro. Não sou carioca. Não moro no Rio de Janeiro nem sou carioca.
Mas sou sensível a dor alheia. Sou um poeta de sensibilidade à flor da pele.
Veja, não digo que não haja pilantragem aqui onde eu vivo. Ao contrário. Aqui a
pilantragem corre solta. Talvez haja mais pilantragem aqui do que no Rio de
Janeiro. Eu mesmo sou um pilantra. Mas aqui os procedimentos de fabricação da
pilantragem são diferentes. Diferentes e mais dignos da nossa imagem de bons
moços. E nessa vida, imagem é tudo. Em matéria de sacanagem os procedimentos
são tudo! A sacanagem aqui é de gabinete, muito mais educada, refinada e
condizente a um filho pródigo que não precisa recorrer a abraço redentor algum.
Ao invés de abraçar o Salvador, fuzilamos o vizinho. É um método mais avançado
de civilidade. Mais avançado justamente porque o Divino está bem longe. É isso
que nos salva. Aqui não existe o famoso ‘cada um por si e Deus por todos’. Aqui
preferimos o ‘cada um por si’ e Deus que se manque! Jamais o vício veste sunga
por aqui. Aqui encobrimos nossa vergonha com terno e gravata. Uma vestimenta
muito mais sofisticada. Quanto mais sofisticação, mais pecados hediondos. É isso!
Os pecados do Rio de Janeiro pertencem a pré-escola da cafajestagem, não tem
qualquer glamour, são de fácil condenação. É por isso que o Rio de Janeiro vive
patinando na vitrine da corrupção de botequim. Quem elege um Garotinho e uma
Rosinha como governantes não pode estar falando a sério! Aqui preferimos um
Maluf! Maluf é um nome que carrega uma dignidade infinitamente maior. Maluf é
árabe. Todo árabe merece respeito, por mais pilantra que seja. Não se come uma
esfiha de boca aberta, repare! Maluf é um Don Corleone. Garotinho e Rosinha são
companheiros do Bob Esponja. Aqui, longe do Rio de Janeiro, somos muito mais
civilizados. Mas essa não é uma característica intrínseca a nós. Não, não. Só
chegamos a esse patamar de evolução porque não tivemos contra nós um Divino de
braços abertos. Aqui não há Cristo Redentor. Ninguém acredita em redenção por
aqui. Somos canibais mesmo, sem fingir absolvição. É isso que falta ao Rio de
Janeiro para se emancipar. Nenhum monumento no mundo é tão ultrajante como o
Cristo Redentor. A estátua da liberdade aponta a tocha para cima num gesto de
‘para o alto e avante!’. A torre Eiffel é uma esfinge de sobriedade metálica. A
própria esfinge do Egito é um gatão sem nariz. Nenhum deles dá a mínima para os
seus habitantes. Não há condescendência possível. O erro do Cristo Redentor é
olhar para baixo e abrir um abraço, dizendo: ‘vinde a mim, ó criancinhas’. Alô,
alô torcida do flamengo: aquele abraço! Eu gosto da terça feira porque na terça
feira eu me dou o direito de praticar minha acidez. Sou ácido. Ácido e
pilantra, como já disse. Quer uma prova? Hoje não, amanhã. Amanhã lhe dou uma
prova irrefutável da minha pilantragem ácida. Quarta feira é dias das provas
irrefutáveis. Hora de estudar para a prova de amanhã. Até lá...
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Segunda feira, dia de homenagem.
Segunda feira. Segunda feira é dia de homenagens. Começo a
semana sempre inspirado, com vontade de homenagear alguém ou alguma coisa.
Termino a semana com vontade de chacinar quase a totalidade do contingente
populacional desse planeta, incluindo os camarões. Camarões são
baratas-salgadas-do-mar. Não entendo como alguém pode almoçar camarões. Comer
camarões é o mesmo que enfileirar três personagens do Kafka num espetinho e
servir no churrasco do fim de semana. Croc! Croc! Croc! Se não engolir as
anteninhas não tem sobremesa! Sou bi-polar. Na segunda feira sou adorável. Na
sexta, abominante – acabei de cunhar o termo ‘abominante’ somente em caráter
gramatical de urgência para se evitar a rima inevitável com ‘adorável’ [obs:
meu herói preferido dos quadrinhos é o Capitão Márvel]. Na hecatombe semanal
provocada por mim, só os labradores sobrariam pra contar a história. Os
labradores são inocentes. Você não é inocente, caro leitor. Se acha que é
inocente é porque é o pior dos culpados. Pergunte a um labrador se ele se acha
inocente. Ele não vai responder. Se acusá-lo de crime, então, receberá no
máximo um lambidão em troca. É preciso muita grandeza moral para devolver um
lambidão quando se é acusado de algo. Os labradores não tem culpa de nada, são
praticamente madres-teresas-de-calcutá em forma de focinho e rabo. Alguém já
viu um labrador no banco dos réus? Pois então, em matéria de cachorrada somos
nós, humanos, os animais – e não foi que noutro dia sequestraram o Zeca, um
pobre de um cachorro manso que mal se deu conta de que estava sendo alvo de um
crime hediondo? Seqüestrar cães é um crime mais que hediondo. Hediondo é termo
para nós, humanos. Todo humano é hediondo. Os cães são peludos. Peludos e
inocentes. Os labradores são inocentes justamente porque não fazem a menor
ideia que o são. Só nós temos essa mania deplorável de nos absolver – ‘todos
são inocentes até que se prove o contrário’. Grande bobagem! É exatamente por
respeitar a essa regra que incorremos nas mais terríveis crueldades. Em nome da
inocência os inocentes derramam toneladas de sangue, sempre acusando suas
vítimas de serem os culpados. Sempre foi assim. Eu faria diferente. Todos
seriam culpados até que se prove o contrário. Como eu não acredito em inocentes
nessa nossa espécie de sapiens, a brincadeira serviria ao menos para nos manter
ocupados. Uma espécie de jogo do milhão para condenados. Se o vencedor não se
salva, ao menos fica rico. Foi dessa brincadeira que surgiu a Daslu, nosso
Carandiru-do-glamour [estou afiado nas rimas!] Chega de sentenças, senhores
membros do júri! Hora das homenagens. Vamos então as homenagens de hoje.
Segunda feira é sempre dia de homenagens! Que rufem os tambores! Pode parar de
rufar, já deu! A minha homenagem de hoje vai para o Rio. Não o rio Tietê.
Pinheiros também não. O Aricanduva eu não sei nem onde fica, embora tenha fortes
suspeitas de que o budum deste não foge a regra dos outros dois. Será que o rio
Aricanduva tem algo a ver com o bairro Aricanduva? Se tiver, pura coincidência.
O meu troféu de hoje não vai para nenhum rio fedorento, vai para o Rio de
Janeiro – se bem que da última vez em que lá estive a fragrância da cidade
passava longe dos aromas de Paris. Nunca fui a Paris, mas disseram-me que se há
alguma cidade nesse mundo fedorento que não fede, essa cidade é Paris. Coitada
de Veneza, um esgotão a céu aberto – sorte que as gôndolas salvam tudo. Não as
gôndolas de mercado, as que bóiam. Bote umas gôndolas navegando no Tietê que o
fedor vira charme. Já não disse antes que tudo nessa vida é uma questão de charme?
Mais importante que a inteligência, é o charme a locomotiva do sucesso. Ou vai
me dizer que você acha o Silvio Santos inteligente? Tire-lhe o laquê do
topete que o seu império desmorona, levando o Bozo e o Chaves junto. E você,
caro leitor, qual é o seu charme? Depois você responde, agora não dá! Vá fazer
o favor de interromper o raciocínio da senhora sua avó! Comigo é assim: pá pum!
Que entrem os trompetes! A homenagem de segunda feira vai para o: Rio de
Janeiro... não digo que nunca irei homenagear o Tietê ou o Pinheiros (O
Aricanduva não sei onde fica), mas se o fizer agora irei parecer uma capivara
nostálgica, dessas que com olhos marejados recordam seus ancestrais nadando de
braçadas por debaixo da ponte das Bandeiras. Hoje, coitadas das capivas, só dá
pra apostar corrida pulando de sofá em sofá e com um pregador no focinho. Já
reparou, caro leitor, que a capivara é um bicho que todos querem bem? Mesmo sem
nunca antes termos dado de comer a uma capivara ou sequer afagado o seu
cocuruto, consideramos a capivara um bicho do bem. Ainda que um rato-gordo, a
capivara nos gera um terno sentimento afetivo. E sabe por que? Justamente por
causa do tamanho. O tamanho a deixa aprazível aos olhos humanos. O tamanho a
absolve da nojeira de seu parente intruso, a ratazana, e a eleva ao status de
roedor admirável! E o que os dois, a ratazana e a capivara, tem de tão
diferente? Nada, excluindo a participação da capivara naquele famoso filme
‘Querida, aumentei o ratão’, ambos se solidarizam nas sequências genéticas que
carregam. Isso me leva a pensar que o equívoco, quando elevado a proporções
homéricas, vira imediatamente motivo de admiração. Quando o erro se torna
gigantesco ele se emenda, pode reparar. E isso acontece também com as figuras
humanas. O duro da vida é esse contingente de funcionários públicos,
verdadeiros camundongos que não fazem outra coisa senão correr para dentro de
suas tocas depois de beliscar um pedaço de queijo preso na ratoeira.
Funcionários públicos, em sua grande maioria, são burocratas pequenininhos que
contaminam a vida alheia com equívocos miseráveis. A podridão da máquina não
está nas suas grandes engrenagens, mas nos pequenos parafusos defeituosos que a
sustentam. Hitler era um doido, mais demente que o próprio era o contingente de
anônimos que o saudava quando o bigodinho escovado do chefe passava em revista.
Agora, veja o Cachoeira! Esse não! Um
pilantra brilhante! Quase um personagem de blockbuster americano! Antes todos
seguissem o exemplo desse cafajeste! O mundo seria muito melhor. O Cachoeira é
a capivara do crime. Eu prefiro me equivocar ao extremo a ter de carregar
pedacinhos de queijo para dentro da minha toca. O mundo de hoje exige a
presença dos grandes personagens equivocados, já que os heróis ficaram para
trás desde a aposentadoria da franquia do super-homem. Falando em herói, lembro
de belos exemplos. E belos exemplos exigem palmas. Não há homenagem sem palmas.
Mas agora já está tarde demais. Deixemos para amanhã o nosso Rio de Janeiro!
domingo, 3 de junho de 2012
Não desbundo, nem solto a franga! Sou inglês...
Ele disse aquilo rápido, de repente, sem aviso prévio, assim
como um peteleco no meio da orelha. Ninguém está pronto para um peteleco na
orelha. Peteleco dói. Na orelha, então, dói ainda mais. Um peteleco pode
ofender mais que uma muqueca na orelha. Eu prefiro ser chamado dos piores nomes
a receber um peteleco na orelha. A dor moral não é nada comparada a dor de um
peteleco. Mas o que recebi naquele instante não foi um peteleco, foi na
velocidade de um peteleco, mas não um peteleco. Antes fosse um peteleco aquilo
que estava prestes a receber. Aquilo doeu, acertou bem no alvo do meu eu.
[Adoro enrolar o meu leitor no preâmbulo do texto só pra saber se ele gosta
realmente de mim. Se chegou até aqui, é porque gosta. Eu gosto de ser amado, se
não houver admiração por mim, nada feito. Se achou esse meu comentário
arrogante e prepotente, vá embora! Desista de mim. Se quiser continuar é porque
me ama. Adoro ser amado. Eu mereço!] Vamos ao que interessa! Cenário: dentro de
um carro. Situação: Volta para casa depois de ir ao teatro. Personagens: Eu e +
3, não citarei nomes para não elevar à fama os coadjuvantes do enredo, afinal,
eu sou o protagonista e o único com direito aos louros do estrelato. AÇÃO!
Estava no banco de trás do veículo e o sujeito ao lado do motorista me lança
aquilo que fazia tempo que não ouvia a meu respeito: 'o dia em que você
desbundar você decola, só falta você desbundar...' Sempre ouvi a mesma coisa,
desde os tempos da faculdade: 'desbunde, meu filho, só falta você desbundar'.
Será que a razão de eu me encontrar nesse limbo miserável é porque eu não
desbundei na minha juventude? E se eu tivesse desbundado aos 18 anos, hoje
estaria rico e famoso? Meu Deus! Eu deveria ter desbundado e não desbundei! O
tempo parou. Pausa dramática! Sentado no carro, virei uma esfinge egípcia de
ódio com a minha recusa injustificável em desbundar nos idos anos do passado
que não volta. Rapidamente passou um filme pela minha cabeça, desses que a
gente vê quando está prestes a empacotar – primeiro o túnel com a luz ao fundo,
depois o filminho-brega da sua triste vida em retrospectiva. Se no seu filminho
a trilha sonora estiver a cargo do Michel Teló, peça pra pular a projeção, você
vai direto pro inferno. Será que só o moribundo assiste a esse
filme-de-presunto, ou convidados aparecem na platéia pra rir também da sua
vergonha? Eu não quero convidado nenhum. A vida é minha. Só eu tenho direito de
chorar ao ver o dia em que vomitei na mesa porque minha mãe obrigou-me a comer
camarão. Camarão é um bicho-antenudo-do-mar, mais conhecido como
barata-salgada, que nem na hora da morte irei perdoar! Do mar para as penas. A
verdade é que desbundar tem a ver com soltar a franga. E eu não solto franga
nenhuma, não sou obrigado. Onde está no contrato que é preciso, em algum
momento da vida, soltar a franga? Não que eu não tenha uma franga presa sob os
meus domínios, todos tem uma franga, mas soltá-la ao Deus dará pra virar frango
de macumba na primeira encruzilhada... ah não! Franga minha eu preservo, dou de
comer, faço dormir no meu travesseiro, ensino os bons costumes. Franga minha
toma chá às 17hs, todos os dias. Minha franga é Chicken, porque eu sou inglês.
Até a rainha da Inglaterra tem uma frangona por debaixo daquele vestido de
realeza. Agora, pergunte pra mim quando foi que a rainha soltou sua Chicken-Queen
pra ciscar pelos jardins de Buckingham... perguntou? Respondo: nunca! Inglês
não sai por aí soltando a franga. Eu sou inglês. A cegonha me derrubou por
acaso quando passava pelo Brasil, depois de tomar um tabefe tropical provocado
pelo vilão El-Niño. Eu não tenho nada a ver com a Carmen Miranda. Não existe
nenhum cocar de bananas no meu guarda-roupas. No carnaval eu viro uma freira
carmelita. No meu guarda-roupas tem fraques, cartolas, bengalas e um cachimbo.
Sou inglês. Só solto a franga depois da troca da guarda real, e na intimidade
do meu toucador. Tem uma peça em cartaz que se chama ‘Macumba Antropófaga’. Não
vou ver. Nem amarrado saio de casa pra uma sessão de macumba antropófaga. Não
sou antropófago, com todo respeito aos modernistas. Sou antropô, se você quiser
ficar responsável pelo pófago, o problema é seu, vá fagocitar o que quiser, mas
longe de mim. Não rebolo e não faço macumba. Se macumba fosse coisa boa não se
chamaria má-cumba, seria boacumba. É isso! Em tempos de macumba, quem prende a
franga é rei! Sou o anti-desbundador assumido! Não desbundarei por nada nessa
vida! Enquanto isso, o meu talento decola...
sábado, 2 de junho de 2012
Eu prefiro ser anão do que cego!
Eu prefiro ser anão do que cego. Essa é uma das minhas máximas irrevogáveis. Já pensei em fazer um adesivo com a tal frase e colar no meu carro. Sou sádico assumido. Qual é o problema? Não sou politicamente-correto e gosto de quem experimenta praticar um sadismo poético em doses homeopáticas. A homeopatia nesse caso é fundamental, senão você corre o risco de abandonar a poesia e reencarnar o alemão do bigodinho escovado. Eu sou poeta, não se preocupe, trabalho no campo do simbólico. O simbólico me salva. No simbólico tenho o direito (e o dever) de ser sádico até a última gota do néctar vermelho que corre nas minhas veias - olha que bonita essa imagem: néctar das minhas veias! Eu sou um poeta! Sou um Poeta-do-sádico, mas ainda assim, poeta. Essa é a graça do homem inteligente, basta um empurrãozinho para abandonar a correção e vestir a capa do vilão grotesco, e se não fosse esse precário equilíbrio entre o que é luz e o que é trevas, não haveria inteligência possível. O principal ingrediente da inteligência é o sadismo. Eu sou inteligente (sorry!). A penumbra é o lugar do homem inteligente. O homem inteligente bota o nariz na luz para depois recolher-se na sombra. As antas são claras, translúcidas, de uma toupeirice cristalina, tomam sol direto no focinho sem vergonha alguma - no dia seguinte estão vermelhonas porque se esqueceram do protetor solar. Você nunca encontraria um homem inteligente rolando na areia da praia feito um bife à milanesa. Os inteligentes estão sempre debaixo do guarda-sol. Quem é realmente inteligente não recusa nunca o desequilíbrio, pode reparar! Já com as antas, na primeira oportunidade, fincam as patas no chão e criam raízes de fazer inveja a uma seringueira da Amazônia. Toda anta é boazinha. Desconfio dos bonzinhos. Os bonzinhos são quase sempre burros, previsíveis, mentirosos, perigosos e chatos. Aliás, tenho medo dos bonzinhos. Morro de pavor desses beatos que correm atrás de uma estátua religiosa do padroeiro-não-sei-das-quantas. Tenho a nítida sensação de que todos são seriais-killers fugitivos de uma penitenciária de segurança máxima à la Bangu 1. Padinho Ciço era da máfia, tenho certeza. Os sádicos assumidos não! Os sádicos assumidos são inofensivos. Todos somos sádicos, mas só os assumidos são inofensivos. Eu sou um sádico assumido, um poeta e um homem inteligente (sorry!). Você que me lê também é sádico, se não fosse sádico já teria parado de percorrer essa minha ladainha logo no título. Agora só resta se assumir. Saia desse armário do politicamente-correto e ganhe sua carta de alforria em nome do obscuro! Mas não precisa se afogar nesse seu pecado horroroso, caro leitor. Mais merecedores de castigo são os castos. Todo casto é um obsceno, já diria o mestre. É só olhar para a cara o papa que você vai me entender. Quando olho para a cara do papa eu dou graças à Deus por saber que o Cão me espera no inferno. Já imaginou passar a eternidade com o papa no céu? Eu prefiro mil vezes sair pra passear com o Cão pelas encruzilhadas do subsolo. Eu adoro cachorros, vou com eles até o purgatório se precisar... e se o Cão for realmente um cão, eu selo meu destino agora: vou pro inferno! Voltemos ao nosso assunto. Como já dizia, eu prefiro ser anão do que cego. Isso por uma razão muito simples: os cegos são mais inteligentes que todos nós, videntes. E isso me desperta um medo atroz. Mas essa é uma inteligência especial, sensitiva, diferente daquilo que forma o argumento intelectual. Quer ver a prova? Édipo só fura os olhos porque se torna sábio, porque descobre que não há mais nada por conhecer. Édipo vira espírito depois de cego, vaga pelos campos como um espectro que tudo sente, tudo vê e tudo sabe sem precisar fazer uso dos olhos. Tirésias, outro personagem da história, só é um oráculo porque não enxerga. É ele, antes de todos, quem pressente a tragédia do protagonista. E esse talento é ditado pela cegueira. Bote umas retinas saudáveis no pobre Tirésias que o velho instantaneamente perde todo o seu potencial dramático. Mas chega de poesia! A verdade é que num belo dia, ao passar numa rua dirigindo meu carro, flagrei uma fila de cegos sendo liderada por um outro, pasmem!, cego - um cego-líder. Quase bati o carro de desespero! Não pelos cegos, mas pela cena. Uma matilha de filósofos-espectrais andando numa calçada de SP! Mais tarde, no mesmo dia, contei pra alguém o que havia visto e a pessoa prontamente me recriminou com um: 'seu insensível! Por que não foi ajudar os coitadinhos?' Eu respondi rapidamente, ainda embevecido pelo terror catártico da cena recente: 'de jeito nenhum! Vai que os cegos resolvem me seguir?'. Eu tenho pavor de filósofos. Os cegos são filósofos! Tudo sabem, tudo conhecem. Eu prefiro ainda ser um homem inteligente que sabe que é burro, ainda preciso ler para conhecer, ver para crer. Essa é a diferença do burro para o inteligente: o burro nunca sabe que é burro, ao passo que todo inteligente tem total consciência da sua jumentice. Quanto ao anão... ah! Deixa pra lá! Obs: favor não ler esse depoimento para nenhum cego, eles já sabem o suficiente para não se incomodar com essa filosofia-de-botequim...
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Saudades da Idade Média, tempos em que não se fazia média...
Queria ter nascido na Idade Média. Não se deixe levar pelo nome, na Idade Média ninguém fazia média... média fazemos nós, eu e você, escravos do contemporâneo - eu sou um escravo do contemporâneo e você também é, quer ver? Estou escrevendo essa minha ladainha num Imac. E se você está lendo isso, perdoe-me a triste sentença, mas também é um escravo... eu e você, dois belos escravos (eu sou belo, eu me garanto, e você? É bonitinho?). Tecnologia não liberta coisa nenhuma, muito menos democratiza o que quer que seja. Tecnologia cria a escola superior de se fazer média. Todo mundo que usa esse negócio chamado computador é especialista em fazer média. Dificilmente algum escravo desse nosso triste tempo sai de peito aberto ao campo de batalha. Não há mais campos de batalha, com exceção do Pacaembu em noite de derrota do Corinthians na Libertadores... aí o bicho pega (sou corinthiano, não venha gozar do meu timão, só eu tenho esse direito!). Voltemos ao assunto. Na Idade Média havia uma infinidade de campos de batalha! Ou você afiava a sua lança ou provavelmente terminaria lambendo a grama, com a jugular aberta. Se fosse comprar pãozinho na padaria da esquina, era bastante aconselhável levar junto sua espada e seu escudo, afinal, vai que...? E Hoje? Hoje se compra pãozinho na padaria na maior ingenuidade, sem nenhum teor dramático! Que desperdício! Acabaram-se os campos de batalha, sobraram as lan-houses, verdadeiros calabouços de prisioneiros fazedores de média. O homem dos nossos dias é o politicamente-correto, o anti-Idade Média por excelência, alguém burilado no talento de morder e assoprar ao mesmo. Ah que saudades da Idade Média! Tempo em que se resolvia tudo na base da fogueira! Imagine se existiria CPI na Idade Média! Qualquer cachoeira seria apagada num instantinho assim: schhhhhhhhhhhhhh. Isso! Não se fazia média na Idade Média. Quando digo que gostaria de ter nascido na Idade Média, basta eu virar a esquina para cruzar com a seguinte réplica: 'Ah é? E quando o senhor tivesse uma dorzinha de dente mixuruca, como faz? Aposto que pegaria correndo uma carona com Marty Mcfly de volta pro futuro'. Não faria isso, não! Nem que a rainha da Inglaterra aparecesse com seu Rolls-Royce pra me buscar eu voltaria (e olha que eu sou inglês de sangue azul, tenho especial apreço pela turma de Windsor). A grande benção da Idade Média está na inauguração da mula como meio de transporte. Eu prefiro ter uma dor de dente lancinante a ter de enfrentar a 23 de Maio todo dia. Aliás, eu prefiro arrancar todos os dentes a ter de ficar parado na 23 de Maio... pensando bem, eu arrancaria minha cabeça fora pra evitar me congestionar na 23! Viraria uma mula-sem-cabeça, personagem da Idade Média, mas estaria livre do trânsito. Hoje não temos mulas porque é muito asno ao volante pra competir com tanto relincho de ignorância. Imagine um congestionamento de mulas na Idade Média! Devia ser o maior barato... ao menos daria pra coçar a crina do bicho enquanto o farol não abrisse. Shakespeare só virou Shakespeare porque desfilou pela Idade Média... coitado do Shakespeare se vivesse nos dias atuais, teria de dar conta do horário nobre das nove horas pra escrever melodramas de botequim. Eu sou mais adepto das bruxas metafísicas do rapaz de Stratford Upon Avon. Ah! Gostaria de ser um personagem medieval! Não faço questão de fazer um mártir, não... deixo as lágrimas para a Joana, a Dark. Poderia interpretar um desses equivocados que acreditava que a terra era o centro do universo, abrindo a bíblia pra justificar que o homem foi feito do barro divino. Imagine que maravilha entrar para a história como um personagem redondamente equivocado? Muito melhor do que morrer feliz na filosofia politicamente-correta de hoje (minha mãe quer que eu me aposente como funcionário público, o que eu faço?). Monstros no fundo do mar, oceanos misteriosos, bruxarias (muito antes do mago Paulo Coelho andar pelo caminho de Santiago com um falcão pendurado no ombro), feitiços... ahhh eu não me importaria em jogar o conteúdo do meu penico pela janela! Gostaria de ter nascido na Idade Média!
Assinar:
Postagens (Atom)






