terça-feira, 14 de abril de 2015

Fábulas: # Ascensão e queda do dublador mímico-facial de vozes famosas e não tão famosas

O dublador mímico-facial de vozes famosas e não tão famosas notabilizou-se por isso, por dublar vozes famosas e não tão famosas ao emprestar seu repertório mímico-facial para as tais vozes sem rosto, fossem elas famosas ou não tão famosas. E era de tal maneira talentoso naquilo a que se propunha fazer que - a despeito de qual voz lhe caísse às mãos -, imediatamente sua máscara ajustava-se ao mastigar sonoro daquele dono invisível, fosse ele famoso ou não tão famoso, homem ou mulher, coisa humana ou animal, animal famoso e não tão famoso. E ficou famoso, ele, o dublador mímico-facial de vozes famosas e não tão famosas, e tão famoso que o programa de maior audiência da televisão nacional o convidou para uma exclusiva entrevista no horário nobre. E foi quando abriu a boca pela primeiríssima vez que todo o universo de admiração evocado por sua mudez carismática veio abaixo. Ouvi-lo era terrível, quase um acinte à saúde dos tímpanos alheios, praticamente um assobio ranhento e fanho que maltratava qualquer gramática, fosse ela talhada ao formato erudito, ou mesmo adequada aos desvarios das gírias populares. Enfim, eis o fim meteórico da não menos meteórica carreira do dublador mímico-facial de vozes famosas e não tão famosas, que após dar a conhecer os grunhidos escabrosos de sua gutural garganta nunca mais pôde fazer-se silencioso, ainda que dublando de maneira magistral o mais variado escopo de vozes esquisitas ou não, vozes humanas ou de animais, vozes famosas e não tão famosas...


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Fábulas: # As antas e a capivara

Uma capivara entrou numa sala repleta de antas e disse em alto e bom som: 'sois todas umas belas dumas antas...' ao que recebeu como repreensão da mais combativa delas 'e quem pensas que tu és para acusar-nos de sermos antas?', emendando então a capivara: 'uma capivara! Que só não é uma anta como vós porque sabe ser uma capivara, o que, automaticamente, já livra-me de ser uma anta, seja ela uma anta parcial ou completa, como sois vós', 'e se nós assumíssemos o que somos, então, e disséssemos que belas e completas antas que somos, o que seria de nós, finalmente?'... 'Seriam capivaras', respondeu a capivara. E as antas emudeceram.
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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Fábulas: # O espectador das coisas alguma...

Um sujeito sentou-se na cadeira central de uma plateia vazia numa noite em que os espetáculos estavam em recesso. E lá ficou por horas, mirando o nada do palco descortinado e silencioso que acontecia bem diante de seus olhos atentos. Perguntado sobre a razão daquele ato doidivanas, respondeu que não havia melhor divertimento que aquele, quando ninguém o tentava divertir, quando ninguém resolvia aparecer para que o dissesse 'veja como eu estou aqui!', que, enfim, nada substituía aquela deliciosa atenção deitada em coisa alguma.

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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Fábulas: # O Dia Mundial da Verdade...



O dia mundial da Verdade era assim comemorado: às moscas. Ninguém saía de casa. Um dia de desertos auto-impostos. Ruas vazias. Silêncio absoluto. Diálogos de ecos. Uma reza infinita e lamentosa, porém não destituída de seu júbilo, que indicava o que parecia obvio:

- A vida é um teatro. Suprima-lhe a mentira, e o que sobra é a vergonha de se estar vivo.

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sábado, 28 de março de 2015

Fábulas: # O filtro de verbos...



Descobriram um filtro que seleciona o dito daquilo que vale a pena ser dito em paralelo ao que é simplesmente dito sem que se diga coisa alguma. E como é praxe não se dizer nada, ou quase nada, e no meio do tanto que se diz sem que se saiba o que se disse, o tal do filtro acabou virando uma espécie de oráculo disputadíssimo onde todos acorriam com sua bagagem de verbos-jorrantes aos borbotões, e cuja principal palavra brotada das engrenagens acionadas, ou expressão revelada, ou verdade inalienável nascida, fruto de repetições quase que recorrentes e infinitas, era, enfim, somente um curto e incisivo, e não menos sábio, NÃO...

- E o mundo, e os que nele habitam em palavrórios, finalmente estancou, estacionou, numa imprevista e celebrada felicidade de recusa, e devolvendo os pensamentos ao seu lugar de pertencimento, ou seja, ao misterioso e inaudito silêncio da consciência de cada um.


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quarta-feira, 25 de março de 2015

Obituários Exemplares: # Cornélio Clemente


Depois de mui meditar sobre o método que o levaria aos umbrais da eternidade - fosse aquela do subterrâneo sulfuroso, ou a do refrigerado teto celestial, tanto fazia -, Cornélio Clemente optou pela estricnina (havia gasto outro tanto bom tempo na pendenga em que o cianureto, de um lado, disputava sua preferência com a estricnina, do outro [tinha uma evidente queda por fármacos, herança dos tempos de leitura dos romances da famosa dama inglesa do crime]. Venceu a última, a estricnina, mas não por nocaute, e sim por pontos!) Mas que pudesse, ao menos, mirar o horizonte de sua abnegada varanda elevada pelos dois dígitos de andares! Era sua única exigência para consigo: morrer com os olhos lá adiante, afinal, se o gesto era deveras egoísta, que ao menos o foco estivesse em outra coisa senão em seu umbigo, equalizando assim a equação a que estava decidido por passar um traço. Levou, pois, o chá de camomila onde já havia ministrado o alvo pó, arauto do nunca-mais, ou do para-sempre, a depender do ponto de vista. Pois antes de sorver o cálido líquido envenenado, e radiante pela brisa fresca que lhe beliscava as bochechas, encostou-se tão precariamente na balaustrada que, não houve como impedir, desequilibrou-se e despencou. Uma verdadeira tragédia. Não deixa filhos, tampouco esposa. Somente uma xícara de chá envenenada e ainda fumegante, que, esperemos, evapore-se silenciosamente até que a fumaça se perca no fatídico horizonte, o mesmo cruel horizonte que matou desavisadamente esse que um dia fora Cornélio Clemente. Já não mais

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segunda-feira, 16 de março de 2015

Fábulas: # A convocação para que ninguém fosse...

Havia sido marcado um ato público convocando toda a população a não comparecer. Que ninguém fosse, porque ninguém indo, e somente dessa forma, a pressão ao governo seria deveras incisiva, obrigando-o finalmente a ouvir os clamores populares, naquela altura já nos limites da goela revoltada. E ninguém foi. E por ninguém ter ido - o vazio das ruas chegou a ser comparado às cercanias da usina nuclear de Chernobil -,  o sucesso fora retumbante, avassalador. Que lindo de ver! Não se via ninguém, nenhuma viva alma! E mediante a tamanha adesão em massa seguiu-se a mais óbvia conclusão: o orgulho patriótico havia atingido o cume estratosférico daquilo que se esperava de uma nação democrática, espargiu por cada esquina desértica, amalgamando à todos nessa curiosa ciranda da solidariedade que só brota naqueles instantes de crise suprema onde o ser humano, piedoso ao seu irmão de augúrio, oferece ajuda ao vizinho de infortúnio. 'Não esmoreceremos' - era o grito que ninguém gritava! 'Viva o Povo' - era a faixa que não se via! Que lindo tudo aquilo! Um verdadeiro hino calado em louvor coletivo! Pois ninguém foi. E não havendo ninguém, nada fora discutido, nenhum carro de som com ninguém em cima a gritar palavras de ordem, um tapa na cara do partido da situação, e, decisivamente, a arrancada da oposição. E como nada se discutiu - um alfinete derrubado no piche do asfalto chegou produzir um eco de ferir os tímpanos -, e não havendo debate algum, não se chegou, portanto, a nenhuma conclusão, o que já era, efetivamente, a melhor das conclusões a que se poderia esperar chegar num evento dessa magnitude. E como resultado de nada, nada foi feito. E o governo capitulou - o clamor não aclamado surtiu seu efeito. E ninguém comemorou. E as ruas já voltam agora a abarrotarem-se. Mas só até a próxima convocação pública. Que orgulho desses meus pares! Que orgulho de meu país! Gente honesta e de compromissos de princípios ilibados e irrevogáveis! 


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