Fui tantos
Quantos
Não pude
Sê-los
...
...
segunda-feira, 16 de março de 2015
quarta-feira, 11 de março de 2015
Fábulas # O dente extra
A firma de implante de próteses dentárias cujo destaque do mês deitava louros na funcionária Margareth Cunha por haver ela vendido tamanha quantidade de caninos postiços aparafusados diretamente na mandíbula daqueles que por distração ou imperícia desperdiçaram os originais de fábrica prometeu para breve o lançamento de um novo modelo de molar lapidado numa cerâmica cujo esmalte prometia competir em longevidade com a arcada dentária das múmias egípcias e que não viria para substituir nenhum dos outros molares originais senão para adicionar um novo e originalíssimo dente àqueles que já existiam por força da providência divina e assim publicou enfim nos jornais a novidade o que fisgou de imediato toda uma clientela que mesmo portadora de uma mastigação perfeita creditou futuro na promessa de poder mastigar melhor bem como falar melhor e por que não pensar melhor...
...
...
quarta-feira, 4 de março de 2015
Fábulas: # O escritor e os escritores
...
...
terça-feira, 3 de março de 2015
Sou uma parte
Não queiram-me maior do que sou
Minha grandeza está nisso:
Em não ser ninguém
E tanto melhor fico
Quanto puder eu passar incólume
Sumindo
Não tirem-me de mim esse prazer: o de recusar dar-me ao prazer dos outros
Se falo é porque desejo calar-me
Se apareço é porque o que me move são os desaparecimentos
Quando escrevo esgoto-me em aflições até o ponto final - bendita sentença!
Minha eternidade será medida em amnésias garfadas à força
Sou um ator
Fingir é um jeito de não ser
Ou ser não sendo
Escondo-me em propósitos só meus
Sem aos teus olhos fazer-me lembrar
Sem pedir qualquer licença
Sem que saibas que um dia
Existi
...
...
segunda-feira, 2 de março de 2015
domingo, 1 de março de 2015
Fábulas: # A Dupla de Nado Sincronizado...
A dupla de dançarinas aquáticas Dolores & Dóris, duas
das mais destacadas nadadoras de nado sincronizado que a história haverá por
justo mérito – e por ainda muito tempo - gazetear, festejar e aplaudir (as
pioneiras Berenice & Blanche já haviam anunciado a aposentadoria das toucas,
ainda que, era regra geral admitir, dessem muito o que fazer com seu submerso
talento lírico), ambas, Dolores & Dóris, ganhadoras dos mais concorridos
prêmios referentes ao conjunto de competições aquáticas onde o nado
sincronizado representa, sem dúvida alguma, a cereja dos olhares, enfim, ambas,
Dolores & Dóris, com seus cabelos longuíssimos presos em coques besuntados
com pasta a prova d’água, cada qual espetada nos focinhos finos com um pregador
de ouro reluzente a produzir faíscas de brilho e que tapavam as narinas das
competidoras para que, uma vez de cabeça para baixo e embaixo d’água, fosse
evitado o que seria uma tragédia de âmbito nacional, ou seja, o afogamento
trágico de ambas as dançarinas aquáticas que mundo nenhum jamais viu melhores (havia
quem dissesse que as pioneiras e já retiradas Berenice & Blanche eram do
mesmo quilate das referidas Dolores & Dóris), enfim, depois daquela marcha
triunfal até a beirada da piscina, ambas feito espelho refletido uma da outra –
pernoca vai, pernoca vem: tchum, tcham, tchum -, e, finalmente, dentro d’água
após um mergulho praticamente siamês, coube observar que nenhuma delas, Dolores
e tampouco Dóris, decorridos longos minutos de expectativa, voltava à
superfície para dar início ao tão esperado número, sumindo por debaixo d’água
sem que tivéssemos qualquer notícia de que um dia, depois do estrondoso sucesso
das pioneiras Berenice & Blanche nas piscinas do circuito mundial de
competições aquáticas onde o nado sincronizado representa, sem dúvida alguma, a
cereja dos olhares, essa nova e reluzente dupla festejadíssima de dançarinas
aquáticas, Dolores & Dóris, existiu, quiçá estampou por justo mérito seu
nome nos jornais para ser gazeteada, festejada, ou aplaudida, tanto hoje quanto
amanhã e por horizontes ainda futuros. Pois o que se seguiu, em razão do sumiço
repentino de Dolores & Dóris, foi um mergulho coletivo atrás de ambas as
dançarinas aquáticas, primeiro o técnico artístico responsável pela coreografia
do balé submarino, o Sr. Bolaños, que uma vez na água também nunca mais emergiu
aos vapores da superfície, gesto repetido por toda a audiência que, enciumada
pelo ato de coragem piedosa uns dos outros, cada qual em seu termo, atirou-se
piscina adentro para o silêncio eterno das profundezas misteriosas, só restando
para a continuidade da competição a bancada de jurados, que por não saber
nadar, resistiu ao ato de bravura coletiva e permaneceu onde estava, em
testemunho fiel ao epílogo funesto de tantos aqueles que, contaminados pelo
alvoroço geral, meteram-se a sumir junto com a dupla de dançarinas aquáticas
Dolores & Dóris, ambas postas no pódio da história como as herdeiras das
pioneiras Berenice & Blanche...
...
...
Assinar:
Postagens (Atom)